sábado, 4 de janeiro de 2014

Ascensão da Horda - Capítulo 20




Conversei com muitos que presenciaram a destruição da cidade de Shattrath. Quando os pergunto sobre o ocorrido, as mentes ficam turvas e se lembram de muito pouco. Até Drek'Thar, que relembra tudo com assombrosa clareza, hesita e gagueja quando peço os detalhes. É como se o sangue ainda fresco em seus lábios, fez aqueles que o beberam, recordar apenas a fúria que sentiram e não as ações que realizaram. E mesmo os que não tomaram, o pequeno grupo do qual Drek’Thar fez parte, não conseguem evocar os acontecimentos. A impressão dada, é que uma atrocidade tão horrível como essa, quer ser esquecida.

Alguns draenei certamente sobreviveram; vi com meus próprios olhos os tristes e patéticos seres que um dia foram gloriosos, divagando por Azeroth, despedaçados, clamando pelo seu antigo lar. Esses infelizes são dignos de pena.

Então esse relato é vago e lamento por isso. Por mais obscuro que fosse não deveria ser esquecido ou encoberto. Mas este é o desafio do cronista.

Os orcs desceram pela trilha, ardendo com uma necessidade feroz de destruição. Alguns estavam transbordando com tanta cólera e ódio que golpeavam rochas pelo caminho, outros gritavam enfurecidos. Havia aqueles que estavam em silêncio, guardando a energia para liberá-la no momento certo.

Durante a longa corrida, Durotan teve mais medo de seus companheiros orcs do que qualquer ogro, ou um bando de talbuques, ou até mesmo um guerreiro draenei raivoso. Suava frio, mas não temia por si. Tinha medo do que aconteceria depois – não com os draenei, pois seu destino certamente já estava decidido, mas com os orcs. Não conseguia concentrar enquanto corriam para Shattrath como a Horda.

Em um determinado momento, um estrondo terrível os derrubou. Levantaram-se e olharam para trás.

Parecia que a montanha havia explodido. Fogo líquido jorrava no céu noturno, subindo e então descendo e espirrando do pico. Brilhava e irradiava como o sangue demoníaco que os orcs tinham acabado de beber, só que ao invés de verde, sua cor era alaranjada. Mais e mais rochas derretidas eram expelidas da montanha. Era uma cena magnífica, hipnotizante e pavorosa.

Os orcs comemoraram, pois entenderam como um sinal. Depois de festejar brevemente na própria montanha, o Trono de Kil’jaeden, abençoando sua empreitada, viraram-se e continuaram sua corrida a caminho da matança.

Diminuíram a velocidade há uma milha da cidade. Uma área havia sido desobstruída recentemente e os orcs que lá chegaram primeiro, observavam, confusos. Foi dito que se reunissem nesse local; e onde as máquinas de guerra deveriam estar.

E sem aviso prévio, algo se materializou a sua frente. Os orcs recuaram com um silvo, então, em vista de tudo isso, começaram a rosnar para o ser gigantesco. Era três vezes maior do que o maior ogro; era vermelho desde as patas fendidas até os chifres salientes. Nunca haviam visto nada naquele tamanho, mas a forma...Durotan encarava. Era nada mais nada menos do que um draenei colossal e com a pele escarlate. A súbita compreensão de que os orcs foram mergulhados em um conflito pessoal e que não era de sua conta, atingiu-o como uma onda gigante.

“àqueles que juraram fidelidade a mim, não há nada que devam temer, apenas celebrar.” gritou e sua voz penetrava em seus ossos. “Sou Kil’jaeden, o Belo, que esteve com vocês desde o começo. E estarei durante a batalha mais gloriosa já vista. Os perversos draenei conspiraram contra os orcs, escondendo uma cidade inteira. Mas essa cidade foi destruída, junto com outras e seu templo foi conquistado. Esta batalha é tudo o que resta para que a ameaça seja eliminada.”

“A pedra verde que um dia escondeu a cidade de Telmor agora esconde a perdição deles.<em> Kehla men samir, solay lamaa kahl!”

E a ilusão foi dissipada. Dezenas de catapultas, aríetes e variadas armas de cerco. Ao lado estavam os ogros, parados e quietos; seus rostos obtusos cheios de determinação. Carregavam armas adaptadas para seu tamanho e Durotan percebeu que havia vários preparados para lutar. As armas pareciam brinquedos em suas mãos.

“E tem mais...” disse e acenou com a mão. Os bruxos gritaram e seguraram a cabeça por um instante, e piscaram com um sorriso no rosto. “Novos feitiços foram transmitidos para suas mentes. Use-os bem. Derrotem os draenei agora!”

Os orcs moveram-se em um pulo, como se tivessem aberto os portões. Alguns se precipitaram para as armas com uma força que Durotan nunca viu antes. Os ogros juntaram-se aos outros, pegando armamento pesado com rapidez. Alguns orcs ainda estavam tão imersos na sede de sangue que apenas correram em direção da cidade. Não fazia ideia o que fariam quando chegassem lá, mas seguiu obedientemente junto com seu clã.

Os ogros impulsionavam as máquinas de guerra com os orcs no encalço. Mas os muros da cidade já estavam sob ataque antes mesmo das maquinas serem manobradas. Rochas verdes enormes e brilhantes caiam do céu e atingiam a cidade. Torres e cidadelas que ultrapassavam o nível dos muros rachavam e estilhaçavam, e o próprio muro começava a desmoronar em alguns pontos. Mas não eram apenas os pedregulhos que caiam que abrangiam o ataque – mas que aparecia uma vez que aterravam.

Movendo-se de maneira deliberada, mas com uma velocidade doentia, criaturas que pareciam ser feitas da mesma pedra verde brilhante levantavam e atacavam. Golpeavam o muro junto com as pedras lançadas pelas catapultas e grandes troncos de árvores arremessadas no portão principal. Dois ogros batiam no portão com suas clavas, fazendo a madeira estremecer. Era possível ouvir os gritos de fúria e terror dos draenei ao lutar contra essas criaturas – “infernais”, escutou de um bruxo. A maioria deles usava esses novos servos e poucos estavam com a versão menor dessas criaturas.

A cidade não iria durar com tamanha investida. E com uma vasta colisão, uma parte do muro de pedras ruiu. Uma maré de orcs enlouquecidos e ogros barulhentos sacudiam suas armas e vertiam pela fissura criada. Durotan não saiu do lugar, parecia estar pregado ao chão olhando orcs a lutarem, matarem e morrerem.

A fúria e raiva que havia visto antes não eram nada comparadas com o que via agora. Não havia estratégia, defesa, ou pedidos para recuar quando necessário. Era apenas matança e massacre, infligindo e recebendo a morte. Caindo estupidamente em armadilhas, atitude esperada dos ogros, que quando caiam em batalha seus corpos jorravam sangue, Durotan não os lamentava. Mas os orcs...importavam-se apenas com a sensação do sangue ressonando em suas veias e os gritos de guerra que ecoavam de suas gargantas.

Dúzias...não, centenas iriam morrer essa noite. As baixas deixariam a cidade inabitável. A nascente testemunharia corpos verdes e azuis emporcalhando as ruas. Mas por agora, era apenas caos, carnificina e profunda insanidade. Durotan brandiu seu machado porque era matar ou morrer, e mesmo vendo seu povo nesse caminho sombrio, ele não desejava morrer.

Kil’jaeden e Mannoroth assistiam juntos os meteoros verdes que abrigavam os infernais espatifarem-se no solo.

“Fervilham como insetos.” grunhiu Mannoroth.

Kil’jaeden aquiesceu, satisfeito. “Certamente. É um espetáculo e tanto. Estou muito contente.”

“Qual o próximo passo?”

Virou-se surpreso para seu tenente. “Próximo? Não tem próximo, pelo menos não aqui. Os orcs cumpriram meu propósito. Ardem com seu sangue, amigo. Por fim irá consumi-los a não ser que arrumem uma válvula de escape, e essa válvula só pode ser achada no massacre de todos os draenei.”

Observou a distância fogo juntar-se ao tom verde.

“Bom saber que já terminou por aqui,” disse o tenente. “Archimonde resmunga que isso é perda de tempo e que nosso mestre precisa de nós em outro lugar.”

Kil’jaeden suspirou. “É verdade. Sargeras está faminto, e tem sido muito paciente comigo. Arrependo-me de uma coisa – não poder assistir a morte de Velen. Bem, já é o bastante saber que acontecerá. Vamos embora daqui.”

Gesticulou e ambos desapareceram.

“Como assim ele não está aqui?” chiou Gul’dan. Não era possível.

“Exatamente o que eu disse.” respondeu Blackhand. “Fizemos uma busca pela cidade. Não localizamos Velen.”

“Quem sabe um soldado muito ávido achou-o e acabou por mutilá-lo.” ponderou com nervosismo. Eram péssimas notícias. Instruiu Blackhand a achar o corpo do profeta e trazer sua cabeça. Era para ser um presente para Kil’jaeden.

“Possível. Muito provável.” disse o Chefe Guerreiro. “Mas pelo o que me havia dito, mesmo se o corpo estivesse em pedaços, não seria confundido por draenei comum.”

Gul’dan balançou a cabeça, sentindo preocupação e enjoo. Draenei tinham a pele azulada e cabelos pretos. Velen, o profeta, era pálido e tinha cabelos brancos. Contanto que houvesse um pedaço inteiro, daria para identificá-lo.

“Vasculhou a cidade?”

Blackhand franziu a testa. “Eu disse que sim.” respondeu sombriamente. A respiração acelerou, seus olhos ficaram mais vermelhos e a cólera subiu pelo corpo.

Gul’dan concordou. Apesar de enfeitiçados pela sede de sangue, não iriam falhar em procurar o corpo mais cobiçado pelo seu líder. A recompensa era muito boa e o castigo caso fosse ignorado e descoberto depois seria implacável.

Velen escapou de alguma maneira. Isso significava que havia outros draenei vivos. Em pânico, imaginou como os deixou escapar por entre os dedos...e para onde tinham ido nesse vasto mundo.

Velen tinha um templo inteiro, repleto de acólitos, sacerdotes e servos, que meditavam e rezavam. Agora, estava numa sala pequena. Segurava o cristal roxo e lágrimas silenciosas e ignoradas fluíam em seu rosto.

Assistiu a queda da cidade. Quis ficar e emprestar uma parte considerável da sua magia, mas isso significaria a morte – não apenas a sua como a do seu povo. Não precisavam de um líder militar. Com sangue demoníaco em seu organismo, os orcs queimavam com desejo de matar que não seria saciado mesmo se assassinassem até o último draenei em Draenor, mas apenas quando a morte endurecessem seus corpos. A demoníaca Legião Ardente de Sargeras e Kil’jaeden os possuíam agora. Os orcs tinham número, ogros, bruxos e um furor que os levariam físico e mentalmente a lugares onde nenhuma mente sã ousaria ir. Velen só podia deixar a cidade cair, pois nada poderia fazer para salvá-la.

Nem mesmo os orcs poderiam ser salvos. A única centelha de esperança para uma possível redenção da Horda jazia no único clã que não bebeu o sangue e não fez parte do pacto e, portanto ainda eram donos de suas almas e corações. Cerca de oitenta orcs. Oitenta para irem contra dúzias de clãs; sendo que um clã já superava esse número, e seu Chefe Guerreiro era o pior de todos. Orcs seriam tratados pelos draenei como bestas enfurecidas, e se esbarrassem com algum no caminho, seriam executados rápida e piedosamente, pois apesar de não compreenderem o que faziam, deviam ser mortos mesmo assim.

Velen queria que abandonassem a cidade, deixá-la vazia para os agressores. Salvar o máximo de vidas possível. Mas Larohir, general inteligente e ágil que havia sucedido Restalaan depois de seu assassinato, o convenceu de que não adiantaria.

“Se não houver draenei suficientes para matar, a sede não poderá ser saciada nem temporariamente. Ficarão ávidos e irão farejar nosso cheiro e nos encontrar. Aqueles que fugirem vão acabar mortos. Devem acreditar que mataram a maioria de nós. E para acreditarem...precisa ser verdade.” disse com compaixão e delicadeza, mas com firmeza.

Velen o encarava horrorizado. “Acha que mandarei meu povo consciente para ser massacrado?”

“Apenas um grupo sabe que fugimos no Argus.” disse o tenente. “Nós lembramos o que Kil'jaeden fez e o que aconteceu com nosso povo. Morreríamos – morreremos – felizes se isso preservasse um punhado incorrupto.”

Velen baixou a cabeça com o peito doendo. “Se acreditarem que mataram a todos, menos alguns draenei banais, Kil’jaeden ficará satisfeito e partirá.”

“Os orcs irão sofrer imensamente.” disse parecendo contente. Velen não o culpava, depois do que os orcs haviam feito contra sua raça.

“Irão, e não duvido que continuem a nos perseguir.”

“Mas o método que podem usar para achar alguns draenei será diferente do que das centenas que sobreviverão. Pensar que estamos destruídos e dispersos será nossa vantagem.”

Olhou o tenente, assombrado. “É fácil falar. Não será você que decidirá. Serei eu. Escolherei e direi ‘Você e sua família virão comigo e viverão. Mas você, você e você devem ficar para trás e deixar os demoníacos orcs parti-los em pedaços e embeber de seu sangue.’”

Larohir nada disse. Não havia nada a dizer.

Velen conversou com cada um que havia escolhido para morrer. Abraçou e abençoou-os; ficou com objetos que significavam algo para eles e prometeu que estes perdurariam. Viu esses guerreiros polirem suas armaduras, sem uma lágrima no rosto, como se houvesse a possibilidade de outro resultado senão a perdição. E os viu marcharem, entoando canções antigas, envolvendo-se nos muros da cidade esperando uma lança, maça ou machado para terminar com suas vidas.

Velen não podia ficar. Tinha habilidades únicas e se os draenei quisessem sobreviver, precisariam delas. Mas usou o cristal para assistir a batalha e a dor que sofreu era abrasadora, mas purificante. Ninguém morreria em vão.

Os orcs não sabiam nada sobre Zangarmarsh. Não haviam detectado esse esconderijo, e se dependesse de Velen, nunca iriam. Aqui, as melhores cabeças draenei continuariam a planejar meios para conseguir energias e direcioná-las para manter a salvo os sobreviventes. Reagrupariam e iriam se recuperar. Curariam suas feridas e rezariam para terem finalmente ludibriado Kil’jaeden, o Enganador e escapado de seu vislumbre.

Os orcs haviam capturado três cristais, mas Velen ainda estava com quatro; Sorriso da Fortuna, Olho da Tormenta, Escudo de Naaru e claro, Canção do Espírito. E apesar da ligação com os Naaru ser tênue, K’ure ainda vivia.

Mesmo derramando lágrimas que tocavam o cristal violeta, e amargando a trágica perda de tantas vidas, Velen, profeta dos draenei, sentiu uma ponta de esperança nascendo dentro dele.







fonte de imagem: http://fc00.deviantart.net/fs70/f/2011/143/b/3/shattrath_city_by_anteal-d3h0s6h.jpg - acesso em 02.jan.2013
fonte de imagem: arquivo pessoal
fonte de imagem: arquivo pessoal
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fonte de tradução: World of Warcraft: Rise of the Horde (No. 4) - 2006

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