terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Ascensão da Horda - Capítulo 13




Como fomos incapazes de ver? É fácil colocar culpa no carismático Kil’jaeden, ou no fraco Ner’zhul, ou Gul’dan e sua fome de poder. Mas eles pediram a cada orc individualmente para fingir que quente era frio, doce era azedo, e mesmo quando tudo em nós clamava contra o que estava sendo dito, nós continuamos. Não posso dizer por que, pois eu não estava lá. Talvez, teria obedecido como um cão disciplinado. Talvez, o medo era muito grande, ou o respeito pelos líderes muito arraigado.

Talvez.

Ou talvez, eu, como meu pai e outros, começaria a ver as falhas. Gostaria de pensar que sim.

Blackhand olhava por debaixo de suas sobrancelhas grossas e testa franzida. Ele sempre parecia estar franzindo a testa, provavelmente porque quase sempre o fazia.

“Não sei Gul’dan.” resmungou. Colocou sua mão, maior do que o normal, no punho da sua arma e a acariciou, inquieto. Ele concordou quando Gul’dan pediu para encontrá-lo quinze dias atrás, e trazer seus xamãs mais promissores, mas não contar a ninguém o que iriam fazer. Blackhand sempre gostou mais de Gul’dan do que de Ner’zhul, apesar de não saber por quê. Quando o xamã sentou com ele para uma generosa refeição e explicou a situação, Blackhand ficou feliz em ter vindo. Agora sabia por que gostava tanto de Gul’dan; o antigo aprendiz e agora mestre era como ele. Ideais não serviam de nada, apenas praticidades. E ambos desejavam  poder, boa comida, armadura extravagante e derramamento de sangue.

Blackhand era chefe dos orcs Blackrock. Não podia mais subir. Pelo menos...não até agora. Quando os clãs eram separados, a maior glória era liderar um. Mas agora...agora trabalhavam juntos. Agora podia ver o brilho da cobiça nos olhos pequenos de Gul’dan. Conseguia quase sentir o cheiro da ambição emanando do xamã, uma ambição que compartilhava.

"Ner’zhul é um conselheiro honrado e valioso.” disse ao mastigar uma fruta seca, estendendo sua garra para tirar um pedaço que havia ficado entre seus dentes. “Tem grande sabedoria, mas foi decidido que eu seria melhor para liderar os orcs a partir de agora.”

Blackhand sorriu ferozmente. Ner’zhul não estava em qualquer lugar que pudesse ser visto.

“E um líder sábio é rodeado de aliados confiáveis.” continuou. “Aqueles que são fortes e obedientes; que cumprirão suas obrigações. E aqueles que, pela sua lealdade, serão tidos em alto prestígio e ricamente recompensados.”

Blackhand se conteve ao ouvir a descrição “obedientes”, mas começou a amolecer quando mencionou “alto prestígio” e “ricamente recompensados”. Olhou para os oito xamãs que trouxe para Gul’dan. Estavam reunidos em volta de uma segunda fogueira, um pouco distante, sendo servidos pelos criados do xamã. Pareciam miseravelmente infelizes e estavam por conveniência fora do alcance para ouvir o que estavam falando.

“Você me pediu os xamãs. Suponho que saiba o que está acontecendo com eles?”

Gul’dan suspirou e pegou uma coxa de talbuque. Mordeu-a com força, o suco escorrendo em seu rosto. Limpou sua mandíbula saliente distraidamente, mastigou, engoliu e respondeu.

“Sim, fiquei sabendo. Os elementos não os obedecem mais.”

Blackhand o observava com intensidade. “Alguns estão resmungando que o motivo é que o que estamos fazendo é errado.”

“Você acha isso?”

Blackhand encolheu seus largos ombros. “Eu não sei o que pensar. É um território totalmente novo. Os ancestrais dizem uma coisa, mas os elementos não respondem.”

Estava começando a nutrir uma suspeita sobre os ancestrais também, mas não disse nada. Blackhand sabia que muitos o achavam tolo; ele preferia deixá-los pensar que ele não era nada além de um braço forte e uma poderosa espada. Dava a ele vantagens claras.

Gul’dan o examinou agora, e Blackhand se perguntava se o novo líder espiritual dos orcs tinha percebido que havia mais no chefe orc do que parecia.

“Temos orgulho da nossa raça,” disse Gul’dan. “É doloroso admitir que não sabemos de tudo. Kil’jaeden e as entidades que comanda...ah, Blackhand, os mistérios que guardam. O poder que eles controlam – este que pretendem compartilhar conosco!”

Os olhos de Gul’dan brilharam com excitação. O coração de Blackhand acelerou. Gul’dan inclinou e continuou a falar num sussurro admirado.

“Somos crianças ignorantes perante eles. Mesmo você – mesmo eu. Mas eles estão dispostos a nos ensinar. Compartilhar uma parte de seu poder. Um poder que não depende dos caprichos dos espíritos do ar, terra, fogo e água.” Gul’dan fez um gesto desdenhoso. “Esse tipo de poder é frágil, não é confiável. Pode abandoná-lo no meio da batalha e deixá-lo desamparado.”

O rosto de Blackhand endureceu. Testemunhou isso ocorrer, e foi preciso toda a força de seus guerreiros para tomar a vitória quando os xamãs começaram a gritar desesperados, pois os elementos não trabalhavam mais com eles.

“Estou escutando.” grunhiu baixo.

“Imagine o que poderia fazer se liderasse um grupo de xamãs que controlasse a fonte de seu poder, ao invés de implorar e rastejar por ele.” continuou. “Imagine que esses xamãs tivessem servos que também poderiam lutar a seu lado; que poderiam, digamos, fazer seus inimigos fugirem aterrorizados e impotentes. Sugar a magia deles como os insetos sugam o sangue no verão. Distraí-los para que sua atenção não fosse na batalha.”

O chefe dos Blackrock levantou uma sobrancelha. “Posso imaginar sucesso sob essas condições. Sucesso quase sempre.”

Gul’dan aquiesceu, sorrindo. “Exatamente.”

“Mas como saber se isso é verdade e não uma falsa promessa sussurrada ao seu ouvido?”

O sorriso do xamã aumentou. “Porque, meu amigo...eu já fiz a experiência. Ensinarei seus xamãs ali tudo o que sei.”

"Impressionante.”

“Mas tenho mais a oferecer. Seus guerreiros – sei de um jeito que fará você e qualquer um que lute ao seu lado mais poderoso, mais feroz, mais mortal. Tudo isso poder ser nosso, se reivindicarmos.”

“Nosso?”

“Não posso continuar a perder meu tempo falando com cada líder de cada clã toda a vez que têm uma reclamação.” disse levantando a mão imperiosamente. “Há aqueles que estão de acordo com o que você e eu pensamos ser o melhor jeito de proceder...e aqueles que não estão.”

“Continue.” disse Blackhand.

Mas Gul’dan não continuou, pelo menos não de imediato. Estava quieto, reunindo seus pensamentos. Blackhand pegou um graveto e cutucou a fogueira. Sabia bem que a maioria dos orcs, inclusive alguns de seu próprio clã achavam ele cabeça quente e impulsivo, mas sabia que a paciência é valiosa.

“Prevejo dois grupos de líderes dos orcs. O primeiro, um simples conselho governante que tome as decisões pelo todo, seu líder eleito, seus serviços administrados abertamente á vista de todos. O segundo...uma sombra desse grupo. Escondido. Secreto. Poderoso.”  mencionou silenciosamente. “Este...Concílio das Sombras será constituído de orcs que compartilham nosso ponto de vista, e que estão dispostos a fazer os sacrifícios necessários para obtê-lo.”

Blackhand concordou. “Sim...sim, eu vejo. Uma liderança pública...e uma confidencial.”

Os lábios de Gul’dan formaram um sorriso. Blackhand observou-o por um momento, e então perguntou:
        “E a qual devo pertencer?”

“Ambos, meu amigo.” respondeu com calma. “Você é um líder nato. Tem carisma, força e até seus inimigos sabem que você é um mestre estrategista. Será fácil eleger você como líder dos orcs."

Os olhos de Blackhand piscaram. “Não sou um fantoche.”

"Claro que não.” assentiu Gul’dan. “Por isso disse que você pertencerá a ambos. Você será líder dessa nova raça de orcs, essa...Horda se preferir. E estará no Concílio das Sombras também. Não podemos trabalhar juntos a não ser que confiemos um no outro, não é?”

Blackhand olhou dentro dos olhos cintilantes e inteligentes de Gul’dan. Não confiava nem um pouco no xamã, e suspeitava que o sentimento fosse recíproco. Não importava. Ambos queriam poder. Blackhand sabia que não possuía talentos ou habilidades que possibilitariam a ele obter o tipo de poder que Gul’dan cobiçava. E o xamã não desejava o poder que Blackhand ambicionava. Não estavam em uma competição, mas em uma liga; o que beneficiasse um, beneficiaria o outro.

Blachand pensou em sua família – sua companheira, Urukal, seus dois filhos, Rend e Maim, sua filha, Griselda. Não os adorava do mesmo jeito que o fraco Durotan adorava sua Draka, claro, mas se importava com eles. Queria ver sua companheira adornada com joias, e seus filhos reverenciados como convém à prole de Blackhand.

Percebeu uma movimentação pelo canto de seu olho. Ao virar-se, viu Ner’zhul, uma vez poderoso e agora desprezado, deslizando para fora da tenda.

“O que tem ele?” perguntou.

“O que tem ele? Ele não importa mais. O Grandioso deseja que ele viva por enquanto. Parece ter reservado algo...especial para Ner’zhul. Ele ainda será um figurante; o amor por Ner’zhul está muito enraizado nos orcs para que seja posto de lado agora. Mas não se preocupe, ele não será uma ameaça para nós.”

“Os xamãs Blackrock...você diz que irá treiná-los nessas novas magias? As magias que você mesmo estudou? Eles serão invencíveis?”

“Eu mesmo os treinarei, e se eles se adaptarem bem às novas artes, os colocarei como os primeiros entre meus novos bruxos.”

Então esse era o nome desse novo tipo de magia. Tinha um som interessante. Bruxo. E os bruxos de Blackrock seriam os primeiros escolhidos.

“Blackhand, chefe do clã Blackrock, o que me diz sobre minha proposta?”

Blackhand virou-se devagar em direção a Gul’dan. “Eu digo, Salve a Horda – E Salve o Concílio das Sombras.”

A multidão que apareceu no pé da montanha sagrada estava furiosa. Durotan mandou mensagens para aqueles em que confiava, e havia recebido confirmações de que os elementos realmente estavam evitando os xamãs. Uma mensagem particularmente dolorosa veio do clã Bonechewer. O grupo todo havia sido derrotado pelos draenei, seu aniquilamento ainda era um mistério até alguns dias depois quando um xamã que ficou para trás tentou curar uma criança doente.

E agora eles vieram, os líderes dos clãs e seus xamãs, para se encontrarem com Ner’zhul e exigirem uma explicação.

Ner’zhul apareceu e os cumprimentou balançando suas mãos e pedindo silêncio.

“Sei o motivo pelo qual vieram hoje,” disse. Durotan franziu a testa. Ner’zhul estava tão ausente que parecia uma mera mancha, mas podia-se escutá-lo perfeitamente. Durotan sabia que, normalmente, ele conseguia isso pedindo aos ventos que sustentassem sua voz para que todos os escutassem. Entretanto, como isso era possível, se os elementos haviam de fato recusado os xamãs? Trocou olhares com Draka, mas ambos ficaram em silêncio.

“É verdade que os elementos não respondem mais os chamados de ajuda dos xamãs.” Ner’zhul continuou a falar, mas foi abafado por gritos de raiva. O xamã olhou para baixo por um momento e Durotan os observou de perto. O líder espiritual dos orcs parecia mais frágil, mais oprimido do que jamais havia visto. É claro, pensou Durotan.

Depois de algum tempo, a gritaria cessou. Os orcs lá reunidos estavam furiosos, mas queriam respostas mais do que queriam descarregar sua raiva.

“Alguns de vocês, ao descobrir isso, tirou conclusões precipitadas que o que estamos fazendo é errado. Mas isso não é verdade. O que estamos fazendo é buscar poderes que nunca vimos.. Meu aprendiz, o nobre Gul’dan, estudou esses poderes. Permitirei que responda a qualquer questionamento que façam.”

Ner’zhul virou-se, apoiando firmemente em seu cajado, e afastou-se. Gul’dan curvou-se em reverência para seu mestre. Ner’zhul pareceu não notar. Ficou de pé, seus olhos fechados, parecendo velho e débil.

Em contraste, nunca havia visto Gul’dan tão bem. Havia uma nova energia no orc, um forte sentimento de confiança na sua postura e na sua voz quando falava.

“O que estava prestes a lhes dizer pode ser difícil de aceitar, mas tenho fé que meu povo não tem uma mente fechada quando o assunto é melhorar a si mesmos.” disse. Sua voz era clara e forte. “Assim como ficamos surpresos e pasmos em saber que existiam seres poderosos além dos ancestrais e dos elementos, descobrimos que há maneiras de canalizar magia além daquela que temos cooperando com os elementos. Poder que não é baseado em pedir, ou implorar, ou comprometer...poder que vem porque somos fortes o bastante para exigir. Controlá-la. Forçá-la a nos obedecer, curvar-se a nossa vontade, e não o contrário.

Gul’dan parou para deixar que eles assimilassem, olhando os orcs reunidos. Durotan olhou Drek’Thar.

“Isso é possível?” perguntou a seu amigo.

Drek’Thar  encolheu os ombros, impotente. Parecia completamente assustado com as palavras de Gul’dan. “Não faço ideia,” disse. “Mas te digo uma coisa, depois da última batalha...Durotan, os xamãs estavam fazendo o trabalho dos ancestrais! Como os elementos nos recusaram nessas circunstancias? E como os ancestrais puderam permitir que isso acontecesse?”

Sua voz ficou amarga ao que falava. Ele ainda estava em choque e com vergonha. Durotan entendeu que o xamã se sentia como um guerreiro que estava confiante em seu machado e o via virar fumaça em suas mãos – um machado que um amigo de confiança havia dado, um que havia sido pedido para ser usado em nome de uma boa causa.

“Sim! Vejo que vocês entendem o valor do que eu – do que o Grandioso que nos tomou sob sua proteção está oferecendo.” concluiu. “Estudei com essa grande entidade, assim como esses poucos nobres xamãs.”

Afastou-se e vários xamãs, vestidos em uma das mais bonitas armaduras de couro trabalha que Durotan havia visto, deram um passo adiante.

“São todos orcs Blackrock.” Draka murmurou. Durotan havia percebido também.

“O que eles aprenderam,” continuou, “será ensinado a cada xamã que deseje ser instruído. Isso eu juro a vocês. Acompanhem-me agora para as terras onde os ritos Kosh’harg são feitos. Irei demonstrar suas formidáveis habilidades.”

Por alguma razão que não podia compreender Durotan de repente sentiu-se mal. Draka apertou seu braço apoiando-o, percebendo sua súbita palidez.

“Meu companheiro, o que aconteceu?” perguntou silenciosamente ao andarem em direção ao solo dos festivais, junto com todos.

Ele balançou a cabeça. “Eu não sei,” disse tão baixo quanto ela. “Eu apenas...sinto que algo terrível está para acontecer.”

“Tenho sentido isso já faz muito tempo.”

Durotan manteve sua expressão imparcial com esforço. Era responsável pelo bem estar de seu povo, e sua relação com Ner’zhul e agora Gul’dan já era precária. Estava bem ciente de que se ambos os xamãs quisessem desacreditar ele ou seu clã, isso seria mais fácil do que antes. Com o foco na união, se o clã Frostwolf fosse exilado ou de alguma maneira excluído, isso seria a extinção deles.  Durotan não estava gostando de como as coisas estavam se desenrolando, mas não podia protestar muito. Não ligava para si mesmo, mas não poderia permitir que seu clã sofresse.

E mesmo assim, seu sangue corria, seu coração disparava, seu corpo tremia com o mau pressentimento. Fez uma rápida reza para os ancestrais para que continuassem a guiar seu povo com sabedoria.

Chegaram ao rio do vale plano que por gerações foi palco do festival Kosh’harg. Ao tocar o solo sagrado, relaxou um pouco. Memórias vieram à tona e sorriu ao relembrá-las. Recordou da fatídica noite quando ele e Orgrim decidiram desafiar as tradições e atreveram-se a espiar os adultos que conversavam – e quão desapontados ficaram com a conversa comum que haviam tido. Mais sábio agora, sabia que ele e Orgrim, por mais corajosos que pensavam ter sido naquele momento, certamente não foram os primeiros a fazer isso, e não seriam os últimos.

Recordou também a primeira vez que viu a fêmea que seria sua companheira para a vida toda, caçando nesses campos exuberantes, dançando em volta da fogueira ao som dos rufos dos tambores vibrando em suas veias, e cantarolar para a lua. Pensou que enquanto seu povo ainda tivesse essas coisas, tudo ficaria bem. Animado, olhou onde as danças normalmente aconteciam. Uma pequena tenda foi erguida e perguntou-se para o que servia.

Draka e ele pararam alguns metros da tenda, presumindo que fosse parte da demonstração. Os outros fizeram o mesmo. O sol brilhava intensamente ao que cada vez mais orcs reuniam-se. Durotan viu que a maioria daqueles que vieram hoje eram chefes de clã e seus xamãs, então o lugar não precisou comportar o número de orcs que normalmente aparecia no festival.

Gul’dan esperou até todos estarem acomodados antes de propositalmente caminhar em direção à tenda. Os xamãs treinados nessa misteriosa e nova magia o seguiram. Andavam com confiança e orgulho. Pararam em frente à tenda, e Gul’dan chamou alguns guerreiros Blackrock, que deram um passo a frente e ficaram atentos.

Nessa hora, o vento mudou. Os olhos de Durotan arregalaram-se ao que o cheiro familiar preencheu suas narinas.

Draenei...

Cochichos baixos em volta fizeram ele pensar que não foi o único que sentiu o cheiro. Nesse momento, Gul’dan acenou para os guerreiros e eles desapareceram dentro da tenda.

Oito draenei com as mãos amaradas bem firmes emergiram da tenda.

Seus rostos estavam inchados pelas surras. Trapos foram enfiados em suas bocas. Sangue coagulado em sua pele azulada e no pouco que restava de suas roupas. Durotan ficou paralisado.

“Quando o clã Blackrock lutou utilizando a magia que estou prestes a compartilhar com vocês, sua vitória foi tão absoluta que foram capazes de capturar muitos prisioneiros.” disse Gul’dan com orgulho. “Esses prisioneiros irão me ajudar a demonstrar o que essas novas habilidades mágicas podem fazer.”

Durotan ficou enojado com a atrocidade. Uma coisa era assassinar um inimigo em um combate armado. Outra era massacrar prisioneiros incapazes de agir. Ele abriu a boca, mas um aperto em seu braço o fez segurar as palavras. Olhou com raiva dentro dos frios olhos cinza de Orgrim Doomhammer.

“Você sabia disso,“ sibilou Durotan, falando apenas para os ouvidos de seu amigo.

“Controle sua voz,” respondeu Orgrim, olhando para ver se alguém estava prestando atenção neles. A atenção de todos estava em Gul’dan e nos prisioneiros draenei. “Sim, eu sabia. Estava lá quando os capturamos. É o jeito que as coisas são, amigo.”

“Não costumava ser o jeito dos orcs.” explicou Durotan.

“É agora,“ disse Orgrim. “É uma triste necessidade. Se serve de consolo, não acredito que será uma prática comum. O objetivo é matar os draenei e não torturá-los.”

Durotan encarava seu amigo. Orgrim encarou de volta e depois corou e desviou o olhar. A raiva dele de repente sumiu. Pelo menos seu amigo entendia a violação que isso representava, mesmo apoiando. Mas o que mais Orgrim poderia ter feito? Ele era segundo em comando de Blackhand. Era jurado a apoiar seu chefe. Como Durotan, tinha responsabilidades para com outros que simplesmente não podia fugir. Pela primeira vez em sua vida, desejou ser um simples membro do clã.

Olhou nos olhos de sua companheira. Ela encarava, horrorizada, primeiro a ele e depois a Orgrim. E então, viu a dor e resignação tomar conta de seus traços e ela baixou a cabeça.

“Esses seres nos deram a honra nesse momento,“ dizia Gul’dan. Com o corpo pesado, Durotan arrastou seu olhar para o xamã. “Iremos usá-los para demonstrar esses novos poderes a vocês.”

Ele acenou para o primeiro xamã Blackrock, que fez uma reverência. Parecendo um pouco nervosa, a fêmea fechou os olhos e concentrou-se. Um som como o de um vento apressado passou pelos ouvidos de Durotan. Um estranho escrito roxo estampado apareceu abaixo de seus pés, envolvendo-a. Acima da cabeça, um cubo roxo rodando casualmente. Então, uma pequena e barulhenta criatura apareceu a seus pés. Fez algumas cambalhotas, seus olhos vermelhos flamejantes e seus dentes pequenos, porém afiados, que revelavam o que parecia ser um sorriso. Durotan escutou alguns sussurros de medo.

Outro xamã o copiou, invocando os mesmos estranhos círculos e cubos roxos, criando criaturas do nada. Alguns eram seres grandes de tons azul e roxo que não tinham forma definida. Outras eram agradáveis de olhar, se não fossem os cascos fendidos e as asas de morcego. Alguns eram grandes, outros pequenos, mas todos estavam parados em silêncio ao lado daqueles que os trouxeram a vida.

“Lindos bichinhos de estimação, para ser exato,” a voz de Grom Hellscream apareceu no fundo cheia de sarcasmo. “Mas o que eles fazem?”

Gul’dan sorriu indulgentemente. “Paciência, Hellscream.” disse. “Não é uma fraqueza e sim um ponto forte.”

Permaneceu em silencio. Durotan presumiu que estava curioso, como todos. Blackhand estava de pé, rindo suavemente, olhando como um pai cheio de orgulho. Não pareceu surpreso ao ver o que estava acontecendo, então imaginou que já havia testemunhado os poderes dos novos xamãs treinados. Testemunhado e aprovado.

Um dos draenei foi solto das amarras e empurrado adiante. Suas mãos, porém, ainda estavam amarradas, tropeçou em seus cascos fendidos depois ficou de pé, ereto. Seu rosto estava impassível. Apenas o movimento lento de sua causa indicava algum estresse.

O primeiro xamã apresentou-se, movendo suas mãos e murmurando levemente. A pequena criatura ao seu lado chiou e pulou, e então de repende fogo surgiu de suas pequenas mãos com garra para atingir o infeliz draenei. Logo depois, uma bola de...escuridão...formou-se nos dedos da xamã e voou em direção ao prisioneiro. Grunhiu de dor ao que sua carne azulada foi escurecida e queimada pelo ataque da pequena criatura, mas caiu de joelhos em total agonia ao que a bola de sombras alvejou-o.

Novamente a xamã murmurou algo, e chamas irromperam do corpo do draenei torturado. Quando antes ele havia sido resiliente e silencioso, agora gritava atormentado, seus gritos abafados pela mordaça em sua garganta, mas não completamente. Seu corpo estremeceu e convulsionou, caindo como um peixe que acabara de ser fisgado, seus olhos rodando descontroladamente. Então ele ficou imóvel. O fedor de carne queimada preencheu o ar.

Por um momento, tudo era silêncio. Então, surgiu um som que Durotan nunca achava que escutaria: gritos de aprovação e prazer à vista do tormento de um inimigo impotente.

Durotan olhava aterrorizado. Outro prisioneiro foi morto por “propósitos demonstrativos”. Este foi açoitado com um chicote por um dos servos dos xamãs, de pé, maravilhado enquanto uma chuva de fogo caia sobre o prisioneiro, ao que a escuridão o atacava. Um terceiro foi trazido, sua essência mágica foi sugada por uma criatura monstruosa que parecia um lobo deformado com tentáculos saindo de suas costas.

O estômago de Durotan revirou ao que sangue azul e cinzas cobriam o que antes era uma terra sagrada, que antes e pelo menos até agora era fértil apesar de seu profundo senso de tranquilidade ter sido brutalmente violado. Aqui ele dançou e cantou para a lua, conspirou com um amigo de juventude, cortejou sua amada. Aqui, gerações de orcs celebraram sua união em um lugar tão sagrado que qualquer briga era separada imediatamente e os responsáveis ordenados a fazerem as pazes ou partir. Durotan não era xamã. Não podia sentir a terra ou os espíritos, mas não precisava disso para sentir que a dor deles era a sua.

Mãe Kashur, certamente, certamente isso não é o que você desejava,</em> pensou. A animação tomou conta de seus ouvidos, o cheiro de sangue e carne carbonizada incomodava seu nariz. Pior de tudo foi ver alguns de sua raça, inclusive de seu clã, serem contaminados pelo frenesi de causar dor e tormento em outros seres que estavam incapazes até de cuspir em seus oponentes.

Percebeu que sua mão estava doendo. Como em transe, ele olhou para baixo e viu que Draka apertava sua mão tão forte que estava prestes a quebrá-la.

"Pelos xamãs!” gritou alguém.

“Não!” a voz de Gul’dan foi levada abafando o barulho da multidão. “Não são mais xamãs. Foram abandonados pelos elementos, e não irão mais chamá-los ou implorar por sua ajuda. Contemplem aqueles que têm poder, mas não mais têm medo de usá-lo. Contemplem...os bruxos!".

Durotan soltou sua mão dos dedos enroscados com o de sua companheira para olhar a montanha sagrada. Sobressaía-se em direção ao céu tão serenamente como sempre foi, seus lados refletindo a luz, e por um momento, Durotan imaginou por que ela não rachou e quebrou, como o coração de um ser consciente, dominado pelo horror pelo o que estava sendo feito sob sua antes confortante sombra.

Houve celebrações descontroladas naquela noite. Durotan não participou de nenhuma delas e nem deixou seus membros participassem. Ao que os xamãs Frostwolf sentavam em volta da pequena fogueira, vencidos e comendo em silêncio, Drek’Thar ousou perguntar a Durotan o que este sabia estar em todas as gargantas.

“Meu chefe,” disse pacientemente. “irá permitir que seus xamãs aprendam as magias dos bruxos?”

Houve um longo silêncio, quebrado pelo barulho da fogueira. Finalmente Durotan falou.

“Farei uma pergunta a você antes.” disse. “Você aprova o que foi feito aos prisioneiros hoje?”

Drek’Thar pareceu desconfortável. “Seria...melhor se os atacássemos em um combate justo.” admitiu. “Mas são nossos inimigos. Isso foi comprovado.”

“Provado que irão contra atacar quando atacados.” replicou. “Tudo isso foi provado.” Drek’Thar estava prestes a protestar, mas Durotan o silenciou antes.  “Eu sei, é o desejo dos ancestrais, mas hoje eu presenciei algo que nunca achei que iria. Vi os campos sagrados onde por incontáveis anos nosso povo reunia-se em paz, manchado pelo sangue daqueles que não puderam levantar um dedo para se defenderem.”

Viu um movimento na beira do círculo e sentiu o cheiro de Orgrim. Durotan continuou.

“E sob as sombras de Oshu’gun. Aqueles que mataram os draenei hoje não o fizeram para proteger uma ameaça as nossas terras. Eles abateram prisioneiros para mostrar seus novos...talentos.”

Orgrim agora tossia baixinho e Durotan pediu que se juntasse. Orgrim era conhecido por todos e sentou-se a fogueira com a familiaridade de alguém conhecido e querido.

"Orgrim,” disse Draka tocando o braço de seu amigo com gentileza. “Os primeiros...bruxos...são de seu clã. O que eles pensam?”

Orgrim encarou o fogo, suas sobrancelhas juntas enquanto ordenava seus pensamentos. “Se nós formos lutar contra os draenei – e até os Frostwolf estão resignados a essa necessidade – então devemos lutar para sermos vitoriosos. Os elementos abandonaram os xamãs. São volúveis e imprevisíveis na melhor das hipóteses, e nunca foram os aliados mais confiáveis. Não como um amigo.”

Olhou para Durotan e sorriu. Apesar do peso em seu peito, ele sorriu de volta.

“Essas novas criaturas, esses poderes estranhos – parecem ser mais confiáveis. E destrutivos.”

“Há algo neles....” a voz de Draka sumiu. Drek’Thar disse rapidamente.

“Sei de suas preocupações. Definitivamente não são poderes naturais, pelo menos não como os xamãs conheciam. Mas quem disse que é errado? Eles existem, devem ter um lugar na ordem das coisas. Fogo é fogo. Se vem dos dedos de um pequeno ser dançante ou da benção do espírito do fogo, não interessa, ele queima a carne da mesma maneira. Concordo com nosso estimado convidado. Comprometemos-nos com a batalha. Com certeza não iremos lutar para perder!”

Draka ainda balançava a cabeça, seus lindos olhos tristes. Suas mãos moviam-se como se procurasse fisicamente pelas palavras.

“É mais do que invocar fogo, ou mesmo estranhas setas de escuridão.” disse. “Lutei contra os draenei. Matei draenei. E nunca os vi se contorcerem com tanta dor, e nem vociferar tal tormento. As coisas que serviam os bruxos pareciam...gostar daquilo."

“Nós gostamos de caçar,” Durotan apontou. Não gostava de discutir com sua companheira, mas como sempre, precisava ver todos os lados do assunto para poder decidir o que era melhor para seu clã. “Os lobos gostam de banquetear-se em carne crua”

“É errado desejar vencer?” desafiou Orgrim, seus olhos estreitando. “É errado ter prazer na vitória?”

“Na caçada e na vitória não. É no sofrimento ao qual me refiro.”

Drek’Thar estremeceu. “Talvez os seres que são invocados para servi-los se alimentem disso. Talvez seja uma necessidade para a sua existência.”

“Mas é necessário para a nossa?” Os olhos de Draka brilhavam com a luz da fogueira, e Durotan sabia que não era raiva, mas eram lágrimas de frustração.

“Os draenei sempre tiveram magia superior a nossa, mesmo com a ajuda dos elementos,” disse Drek’Thar. “Sempre fui um xamã. Nasci assim. E agora falarei que irei abraçar o caminho dos bruxos, se o líder do meu clã permitir. Porque eu entendo o que aqueles poderes podem fazer por nós, tendo lidado com os elementos pelo tempo que lidei. Eu diria Draka, desculpe, mas sim, isso é necessário para a nossa existência. Se não tivermos os poderes dos elementos para nos ajudar, os draenei irão nos obliterar da face da terra.”

Draka suspirou e enterrou seu rosto nas mãos. O pequeno grupo estava em silêncio, o único som vinha da fogueira. Durotan achou que faltava algo, e agora ele sabia. Não escutava o som das criaturas noturnas, pássaros, insetos e outros seres que antes enchiam o ar com sons discretos. Foram afastados deste lugar por causa do que aconteceu aqui mais cedo. Tentou não tomar isso como um mau presságio.

“Permitirei que o clã Frostwolf aprenda essas artes.” disse gravemente.

Drek’Thar baixou a cabeça. “Eu agradeço Durotan. Não irá se arrepender.”

Durotan não respondeu.








fonte de imagem: http://static2.wikia.nocookie.net/__cb20100905123230/wowwiki/images/f/fe/Rend.jpg - acesso em 29.dez.2013
fonte de imagem: blizzard - acesso em 29.dez.2013
fonte de imagem: blizzard - acesso em 29.dez.2013
fonte de imagem: http://fc05.deviantart.net/fs70/f/2012/223/2/2/grom_hellscream_by_tamplierpainter-d5aoyup.jpg - acesso em 29.dez.2013
fonte de tradução: World of Warcraft: Rise of the Horde (No. 4) - 2006

Coja no Wow e Acervo de Azeroth não tem a intenção de ir contra qualquer copyright e/ou trademark, o conteúdo disponibilizado é de total direito intelectual da Blizzard, sendo terminantemente proibido a cópia e a publicação dos textos para utilização em fins comerciais sem autorização da empresa detentora dos direitos autorais. Estes textos são conteúdo traduzido de um fã para fãs e para uso exclusivamente gratuito. Tão logo o conteúdo seja traduzido oficialmente para o português o mesmo será retirado do ar, caso a empresa se sinta lesada por qualquer postagem apenas um comunicado por parte dela é o suficiente para o conteúdo ser retirado do ar.

0 comentários:

Postar um comentário