quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Último Guardião – Capítulo 8 – Lições




“Para entender a Ordem.” começou Medivh, “você deve compreender o que são os demônios. E deve compreender também o que é magia.” Acomodou-se confortavelmente em uma das cadeiras que não havia sido danificada. Ainda estava com a almofada intacta.

“Lorde Medivh...Magus.” disse Khadgar. “Se há um demônio a solta em Stormwind, deveríamos resolver isso primeiro e não perder tempo com lições que podem ser ensinadas mais tarde.”

O mago abaixou a cabeça e Khadgar temeu poder desencadear outro ataque de raiva do mago, mas ele simplesmente sorriu e disse, “Suas preocupações teriam fundamento se o demônio em questão fosse uma ameaça para os cidadãos. E não é o caso, acredite. Este, mesmo se fosse um dos oficiais mais poderosos da Legião Ardente, precisaria usar quase todo o seu poder para lidar com os dois magos poderosos que o invocaram. Por enquanto ele não é um problema. O importante agora é saber o que a Ordem é, o que eu sou, e por que muitos têm tanto interesse por isso.”

“Mas Mago...” tentou mais uma vez Khadgar.

“E o quanto antes eu terminar de explicar, o quanto antes poderei saber se posso confiá-lo essa informação, e assim poderei lidar com esse demônio insignificante, portanto se quer mesmo que eu vá, seria melhor me deixar terminar primeiro.” O rosto de Medivh tinha um sorriso condescendente.

Khadgar pensou em protestar mais uma vez, mas pensou melhor. Apoiou-se no parapeito largo da janela aberta. Apesar do esforço dos servos em remover os corpos da torre, o odor da morte, um palor corrosivo, ainda pairava no ar.

“Então, o que é magia?” perguntou Medivh com ar acadêmico.

“Um campo de energia que se espalha pelo mundo.” respondeu o jovem, quase sem pensar. Era automático; uma resposta simples para uma pergunta simples. “É mais forte em algumas localidades do que em outras, mas é onipresente.”

“É sim.” concluiu o mago mais velho. “Atualmente, pelo menos. Imagina quando não era.”

“Magia é universal.” disse Khadgar, e assim que o fez sabia que seria provado do contrário. ‘“Como a água ou o ar.”

“Sim, como a água. Agora pense nos primórdios do mundo, quando toda a água do mundo estava em um único lugar. Chuva, rios, mares, correntezas, chuviscos, riachos e gotas; todas em uma localidade.”

Khadgar aquiesceu.

“Agora, em vez de água, é de magia que estamos nos referindo.” começou o jovem. “Um poço de magia, a fonte, uma abertura para outras dimensões um portal tremeluzente para terras além da Imensa Escuridão, além dos muros do mundo. A primeira espécie a invocar feitiços vivia em volta da nascente e destilavam o seu poder cru em magia. Naquela época eram conhecidos como Kaldorei. Hoje, não saberia dizer.“ Medivh observava seu aprendiz, mas este permaneceu em silêncio.

Medivh resumiu. “Os Kaldorei tornaram-se poderosos pelo uso da magia, mas não entendiam a sua natureza. Não sabiam que existiam outras forças poderosas no Imenso Além, transitando no espaço entre os mundos, famintos por magia e muito interessados naqueles que a dominavam para usá-la a favor deles. Essas forças malignas eram abominações, bárbaros e pesadelos de centenas de planetas, mas os simplificamos para apenas demônios. Querem invadir qualquer mundo em que a magia é dominada e evoluída, destruí-lo e usurpar as energias para si próprios. E o mais poderoso deles, o senhor da Legião Ardente, era um demônio chamado Sargeras.”

Khadgar relembrou a visão com Aegwynn e tentou disfarçar.

Se o mestre percebeu a reação do jovem, não foi possível saber. “O senhor da Legião Ardente era poderoso e sútil, e vivia para corromper aqueles que usavam magia, os Kaldorei. Foi bem sucedido, uma vez que uma sombra invadiu seus corações, fazendo-os escravizar outras raças, tanto os recentes humanos como outras, para que construíssem seu império.”

Medivh suspirou. “E nesses tempos havia alguns da mesma espécie que viam além e estavam dispostos a ir contra os Kaldorei e pagar o preço por sua clarividência. Esses bravos indivíduos, inclusive de outras raças, viram que os corações dos Kaldorei que reinavam estavam se tornando frios e obscuros, e o poder demoníaco aumentou.”

“E acabou que os Kaldorei foram corrompidos por Sargeras, de tal maneira, que quase condenaram esse mundo logo após seu nascimento. Ignoraram os que se manifestaram contra eles e abriram o caminho para Sargeras e seus oficiais invadirem. Foi pelo ato heroico de poucos que o portal foi fechado, assim banindo-o e seus seguidores. A vitória, porém, custou caro. A Nascente da Eternidade explodiu quando a entrada foi fechada, resultando na rachadura do coração deste mundo, destruindo as terras dos Kaldorei e o continente que o abrigava. Os responsáveis pelo fechamento do portal nunca mais foram vistos. “

“Kalimdor!” interrompeu Khadgar.

Medivh olhou para o jovem, que continuou. “É uma lenda antiga de Lordaeron! Sobre uma raça maligna que ineptamente manejaram uma vasta força. Como punição por seus pecados, as terras, chamadas Kalimdor, foram devastadas e colocadas sob as ondas. Isso foi chamado de Ruptura do Mundo. “

“Kalimdor.” repetiu Medivh. “Apesar de conhecer a versão infantil da história, esta é passada a magos aprendizes para que tenham noção com o que estão lidando. Kaldorei eram tolos, e destruíram a si próprios. E quando a Nascente da Eternidade explodiu, as energias mágicas que lá habitavam, espalharam-se pelos quatro cantos do mundo, como uma eterna chuva de magia. E por isso ela é universal, é o poder gerado pelo fim do poço.”

“Isso foi há dez mil anos.” espantou-se o jovem.

“Dez mil anos, aproximadamente.” concluiu.

“E como essa lenda nos influencia? Dalaran guarda apenas histórias de dois séculos atrás e são sempre envoltas em lendas.”

Medivh concordou e retomou seu relato. ”Muitos pereceram na ruína de Kalimdor, mas alguns sobreviveram e mantiveram o conhecimento adquirido. E estes criaram a Ordem de Tirisfal. Se Tirisfal era uma pessoa, um lugar, um objeto ou uma ideia, nem mesmo eu poderei responder. Aprenderam com tudo o que aconteceu e juraram não deixar acontecer de novo. E esse é o alicerce da Ordem.”

“E a raça dos humanos também sobreviveu àqueles tempos obscuros e prosperou e logo, com a magia espalhada pelo mundo, e também estavam flertando com as portas da realidade, começando a invocar criaturas da Imensa Escuridão, bisbilhotando perto dos portões cerrados da prisão do Sargeras. Foi quando os Kaldorei que haviam sobrevivido e mudado, apareceram contando a história de como seus antepassados quase destruíram o mundo.”

“Os primeiros magos humanos levaram em consideração o que havia sido dito por esses sobreviventes e perceberam que mesmo se abandonassem suas varinhas e grimórios, outros buscariam, inocentemente ou não, jeitos que permitissem a entrada de demônios à nossa terra verdejante. E eles continuaram a Ordem, agora como uma sociedade secreta entre poderosos magos. E a Ordem de Tirisfal iria escolher um entre os seus para servir de Guardião. E os maiores poderes seriam dados a este Guardião, para ser o protetor da realidade. Mas agora não era uma grande nascente de poder, mas uma chuva infinita de magia que cai até hoje. Nada menos do que a maior responsabilidade do mundo.”

Medivh ficou quieto e seus olhos perderam o foco por um momento, como se perdido em pensamentos do passado. Depois sacudiu a cabeça, voltando a si, mas permaneceu em silêncio.

“Você é o Guardião.” concluiu Khadgar.

“Sim.” disse o mago. “Sou o filho da maior Guardiã de todos os tempos e o poder foi-me dado logo após o meu nascimento... era muito para mim e paguei com uma boa parte da minha juventude.”

“Mas você disse que eles escolhiam entre eles.” apontou Khadgar. “Aegwynn não poderia ter escolhido alguém mais velho? Por que escolher uma criança, ainda mais sendo a sua?”

Medivh respirou fundo. “Os primeiros Guardiões, dos primeiros milênios, foram escolhidos pelo seleto grupo. A própria existência da Ordem era escondida, como desejado pelos fundadores. No entanto, com o tempo, interesses políticos e pessoais entraram em jogo, de tal maneira, que o Guardião tornou-se nada mais do que um servo, um serviçal mágico. Alguns dos magos mais importantes perceberam que era trabalho do Guardião fazer com que todos não apreciassem tanto a magia que eles próprios controlavam. Assim como com Kaldorei há tantos anos, uma sombra de corrupção estava pairando sobre os membros da Ordem. Mais demônios estavam entrando e até pequenas manifestações do próprio Sargeras estavam ocorrendo. Uma mera fração de seu poder, mas o suficiente para destruir nações e exércitos.”

Khadgar lembrou da visão de Sargeras que lutou contra Aegwynn. Seria aquela apenas uma parte do grande poder do demônio?

“Magna Aegwynn,” e Medivh calou-se assim que as palavras saíram de sua boca. Era como se não tivesse o costume de proferi-las. “Aquela que me pariu nasceu há quase mil anos. Era realmente talentosa e foi escolhida por outros membros da Ordem para ser Guardiã. Aposto que o mago mais grisalho de todos eles achou que poderia controla-la e assim fazer dela um peão de seus jogos políticos.”

“Ela os surpreendeu.” e sorriu ao falar. “Recusou-se a ser manipulada inclusive lutou contra alguns dos maiores magos da época quando foram corrompidos por forças demoníacas. Muitos acharam que ela ficaria mais flexível com o tempo e quando chegasse a hora de passar o manto, ela escolheria alguém mais maleável. E novamente ela os surpreendeu usando sua magia para viver mil anos, imutável, exercendo seu poder com sabedoria e graça. Então houve a cisão entre a Ordem e a Guardiã. O primeiro pode aconselhar o segundo, mas este deve ser livre para desafiar o anterior, evitando o que aconteceu com os Kaldorei.”

“Ela lutou nos limites da Imensa Escuridão por mil anos, até mesmo desafiando o aspecto físico de Sargeras, que inoculou um plano para destruir os dragões míticos, querendo usurpar seus poderes para si. Magna Aegwynn o encontrou e derrotou, trancando seu corpo em um local desconhecido, separando-o da Imensa Escuridão, onde jaz sua força. Isso encontra-se no poema épico ‘Canção de Aegwynn’ que Guzbah tanto deseja. Mas ela não poderia viver para sempre e sempre deve haver um Guardião.”

“E então...” a voz de Medivh vacilou. “Ela tinha mais um truque na manga. Era poderosa, mas ainda era de carne e osso. Todos esperavam que ela passasse seu poder. Em vez disso, ela gerou um herdeiro com um conjurador do próprio Tribunal de Azeroth e ela escolheu a criança como sucessor. Ameaçou a Ordem, dizendo que a escolha não fosse respeitada, ela não desistiria do posto, pois preferia morrer junto com o poder do Guardião do que permitir que outro o tivesse. Eles pensaram que seria mais fácil manipular mais facilmente a criança...eu...então eles aceitaram.”

“Era poder demais.” continuou o mago. “Quando eu era jovem, mais do que você é agora, ele acordou dentro de mim e eu dormi por mais de vinte anos. Magna Aegwynn tinha tanta vida e eu perdi a maior parte dela.” Sua voz falhou mais uma vez. “Magna Aegwynn...minha mãe...” recomeçou, mas percebeu que não havia mais nada a ser dito.

Khadgar permaneceu sentado por um momento. Então Medivh levantou, sacudiu a manta e começou. “Enquanto eu dormia, o mal se movia furtivamente pelo mundo. Havia mais demônios e mais desses orcs. E agora membros da minha própria Ordem estão caminhando pelas sombras. Sim, Huglar e Hugarin eram membros da Ordem, assim como outros, como o ancestral Arrexis dos Kirin Tor. Algo parecido aconteceu com ele e apesar de terem acobertado, você deve ter escutado algo sobre o ocorrido. Temiam o poder da minha mãe e temem a mim. Tenho que impedir que esse sentimento os destrua. Esse é o fardo que recai sobre o Guardião de Tirisfal.”

O velho mago recuperou-se. “Devo partir!”

“Partir?” indagou o jovem, surpreso com a energia do seu mestre.

“Como você corretamente notou, há um demônio a solta.” respondeu Medivh com um sorriso renovado. “Solte o alarme. Devo encontra-lo antes que recupere suas forças e mate inocentes.”

Khadgar ficou de pé. “Por onde começamos?”

Medivh virou-se e olhou timidamente para o jovem. “Ah, nós não começaremos nada. Eu irei. Você é talentoso, mas ainda não está à altura de lidar com demônios. A batalha é minha, aprendiz Jovem Confiança.”

“Magus, tenho certeza de que posso...”

Mas Medivh levantou a mão, assim silenciando o jovem.

“Também preciso de você aqui para ficar de olhos e ouvidos abertos.” completou o mago. “Não tenho dúvidas de que o velho Lothar passou os últimos dez minutos com a orelha colada na porta, a ponto de haver a impressão de um buraco de fechadura em seu rosto.” Medivh sorriu. “Ele sabe muito, mas não tudo. Por isso contei para você, para que ele não arranque tanto de você. Preciso de alguém para vigiar o Guardião, como antes.”

Medivh piscou rapidamente para Khadgar. Depois caminhou até a porta, abrindo-a com um movimento rápido.

Lothar não tropeçou para dentro da câmara, mas estava lá, logo após a porta. Poderia estar ouvindo, ou apenas vigiando.

“Med,” começou Lothar, com um sorriso nervoso. “Sua Majestade...”

“...entenderá perfeitamente.” completou Medivh, passando batido pelo amigo. “Prefiro encontrar-me com um demônio violento do que o líder da nação. Prioridades e tudo mais. Enquanto isso poderia cuidar do meu aprendiz?”

Ele disse tudo em um único fôlego e então correu para as escadas, deixando Lothar no meio da frase.

O velho guerreiro coçou a parte careca da cabeça, suspirando fundo. Depois olhou para Khadgar e deu um suspiro ainda mais profundo do que o primeiro.

“Ele sempre foi assim, sabe?” disse Lothar como se o jovem realmente soubesse. “Você deve estar com fome. Vamos ver se achamos algo para você comer.”

O almoço consistia em uma ave fria trazida sob o braço de Lothar da câmara resfriada e duas canecas de cerveja do tamanho de jarros. O Campeão do Rei estava muito à vontade, apesar da situação, e levou Khadgar para uma varanda com vista para a cidade.

“Meu senhor,” disse Khadgar. “Apesar do pedido do Magus, sei que tem outros afazeres.”

“Sim.” Respondeu Lothar. “E cuidei da maior parte deles enquanto conversava com Medivh. Rei Llane está em seus aposentos sob guarda, como a maioria dos cortesãos, caso o demônio decida esconder-se no castelo. Também tenho agentes espalhados pela cidade com ordens para ficar na espreita e relatar algo suspeito. A última coisa que precisamos é pânico. Fiz o que pude. Não há mais nada a fazer além e esperar.” Olhou para o jovem aprendiz. “E meus tenentes sabem que estou aqui, sempre almoço mais tarde.”

Khadgar ponderou as palavras e achou-o muito parecido com seu amigo Medivh. Não apenas planejando seus passos com antecedência mas deleitando-se em contar aos outros como planejou tudo. Pegou um pedaço da carne de peito da ave, enquanto Lothar preferiu a coxa.

Terminaram a refeição em silêncio. A carne da ave estava muito boa. Havia sido temperada com uma mistura de alecrim, bacon e manteiga de leite de ovelha colocada sob a pele antes de assar. Mesmo fria, desmanchava na boca. A cerveja, por sua vez, estava pungente, rica e lúpulo das cidades baixas.

Abaixo deles a cidade se projetava. A cidadela estava no topo de um afloramento rochoso que separava o rei de seus súditos e de lá eles pareciam nada além de pequenos bonecos, perambulando ao longo das ruas cheias. Algo como uma feira acontecia lá embaixo, com vitrines dispostas brilhantemente e vendedores ocupados gritando (para Khadgar era como se sussurrassem) as vantagens de suas mercadores.

E, por um momento, Khadgar esqueceu onde estava, o que havia visto e o motivo por estar ali. Era uma cidade linda. Apenas o resmungo de Lothar foi capaz de trazê-lo de volta.

“Então,” começou o Campeão do Rei. “Como ele está?”

O aprendiz pensou por um pouco e respondeu. “Está bem, como você mesmo pôde ver, senhor.”

“Bah!” cuspiu Lothar e o jovem pensou que o guerreiro havia se engasgado em um pedaço de carne. “Eu posso ver que ele é capaz de dançar ou mesmo ludibriar os outros a fazerem o que ele quer. O que quero dizer é: como ele está?”

Khadgar olhou a cidade de novo, imaginando se teria o talento de Medivh em engambelar Lothar e negar respostas sem causar afrontas.

Medivh arriscava amizades e lealdades há mais tempo do que ele estava no mundo, então decidiu que não faria isso.  Tinha que encontrar outra maneira de responder. Suspirou fundo e disse. “Exigente. Ele é muito exigente. E inteligente. Tenho a impressão que sou aprendiz de um turbilhão.” E por fim olhou para o homem mais velho, que estava com as sobrancelhas levantadas, esperando que aquilo fosse o suficiente.

Lothar concordou. “Turbilhão, com certeza. E um temporal também, imagino.”

O jovem estremeceu um pouco. “Ele tem seus humores, como qualquer um.”

“Hum.” Ponderou o Campeão do Rei. Um fazendeiro perde o humor e desconta no cachorro. Um mago perde o humor e uma cidade desaparece. Sem ofensas.”

“Sem problemas, senhor.” disse Khadgar lembrando do mago queimado no quarto. “Perguntou como ele está. Ele está o que acabei de descrever.”

“Hum.” Repetiu Lothar. “Ele é uma pessoa poderosa.”

E Khadgar pensou como ele preocupava-se com ele como os outros magos, mas no final disse. “Ele o considera muito.”

“O que ele disse?” perguntou mais rápido do que achou que deveria.

“Apenas que cuidou bem dele quando ficou doente.” respondeu escolhendo as palavras com cuidado.
“Justo.” grunhiu em resposta, olhando para a outra coxa da ave.

“E que é extremamente atencioso.” adicionou o aprendiz, considerando isso uma parte satisfatória da opinião de seu mestre sobre o campeão.

“Fico feliz em saber.” disse com a boca cheia. Houve uma pausa para que Lothar mastigasse e engolisse. “Ele falou sobre o Guardião?”

“Nós conversamos.” começou Khadgar, vendo que estava em um terreno perigoso. Medivh não havia mencionado o quanto Lothar sabia. Preferiu o silêncio como uma resposta apropriada e deixou a frase no ar.

“E não é apropriado para o aprendiz discutir sobre os assuntos de seu mestre, certo?” expôs Lothar com um sorriso que parecia um pouco forçado demais. “Rapaz, você é de Dalaran. Aquele ninho de cobras tem mais segredos por metro quadrado do que qualquer outro lugar no continente. Mais uma vez, sem ofensas.”
O jovem ignorou o comentário. Com diplomacia, declarou. “Percebo que há uma rivalidade menos óbvia aqui do que em Lordaeron.”

“E você quer me convencer de que seus professores não o enviaram com uma lista de coisas para arrancar do Magus?” sorriu e parecia quase solidário.

O rosto de Khadgar começou a esquentar. O velho guerreiro estava disparando cada vez mais perto do alvo. “Qualquer pedido vindo da Cidadela da Violeta está sendo considerada pelo próprio Medivh. Ele tem sido muito complacente.”

“Hunf.” esnobou Lothar. “Isso quer dizer que não fizeram as perguntas certas. Sei que os magos por aqui, incluindo Huglar e Hugarin, que descansem em paz, importunavam sempre sobre isso ou aquilo e reclamando diretamente com sua majestade, ou comigo, quando não conseguiam. Como se tivéssemos algum controle sobre ele!”

“Não acho que alguém tenha,” disse Khadgar, afogando qualquer outro comentário que pudesse fazer com um gole de cerveja.

“Nem mesmo sua mãe, pelo o que sei.” soltou o campeão. Era um comentário inocente, mas escapou como um golpe de punhal. Khadgar conteve sua vontade de perguntar mais sobre ela.

“Creio ser muito novo para saber.” começou o aprendiz. “Li sobre ela. Parece ter sido uma maga poderosa.”

“E esse poder agora está dentro dele.” declarou. “Deu luz a ele de um mago desta corte, desmamou-o em magia pura e derramou seu poder nele. Sim, sei tudo isso, juntei as peças depois que ele ficou em coma. Magia demais para alguém jovem demais. Mesmo agora fico preocupado.”

“Você acha que ele é poderoso demais,” disse Khadgar e congelou ao receber um olhar penetrante de Lothar. Arrependeu-se de dizer o que passava pela sua cabeça, pois foi quase uma acusação ao seu anfitrião.

Lothar balançou a cabeça e sorriu. “Pelo contrário, rapaz, acho que ele não é poderoso o suficiente.”

“Há coisas horríveis acontecendo nos reinos. Esses orcs que viu há um mês estão se multiplicando como coelhos depois da chuva. E trolls, que estavam quase extintos, estão reaparecendo com frequência. E Medivh está caçando um demônio nesse momento. Tempos ruins se aproximam e espero, não rezo, que ele suporte. Ficamos vinte anos sem o Guardião, quando ele estava em coma. Não quero encarar outros vinte, ainda mais em um momento como este.”

Khadgar ficou envergonhado. “Então quando perguntou como ele estava, você quis dizer...”

“Como ele está?” terminou o campeão. “Não quero que ele fique fraco justo agora. Orcs, trolls, demônios e agora ainda...”. A voz de Lothar perdeu-se. Olhou para o aprendiz e continuou. “Posso presumir que já sabe sobre o Guardião?”

“Sim, pode.” respondeu.

“E também a Ordem?” acrescentou sorrindo o guerreiro. “Não precisa dizer nada, seus olhos já o denunciaram. Nunca jogue baralho comigo, hein?”

Khadgar sentiu que estava perto do limite. Medivh o avisou para não falar demais para o campeão, mas ele parecia saber tanto quanto o aprendiz. Talvez até mais.

“Não iríamos buscar Med se fosse apenas um caso simples de falha de feitiços. Nem mesmo por dois magos comuns que foram pegos fazendo algo errado. Huglar e Hugarin eram dois dos nossos melhores e mais poderosos. Havia outra, ainda mais poderosa, mas encontrou seu destino em um acidente há dois meses. Acredito que todos os três eram membros da sua Ordem.” Disse Lothar com uma voz calma.

Khadgar sentiu um arrepio na espinha e apenas conseguiu dizer. “Acho que não me sinto confortável falando sobre isso.”

“Então não fale.” disse Lothar com seu cenho franzido como se fosse algum sopé de montanhas antigas. “Três magos mais poderosos de Azeroth, que não chegam nem aos pés de Medivh ou sua mãe, acredite, mas mesmo assim eram grandes feiticeiros. Mortos. Posso acreditar que um mago foi azarado, ou imprudente, mas três? Um guerreiro não acredita em tantas coincidências.”

“Tem mais.” continuou. “Tenho meus próprios meios de descobrir as coisas. Comerciantes em caravana, mercenários e aventureiros que vêm à cidade e encontram um bom ouvinte no velho Lothar. Notícias de Ironforge, Alterac e até mesmo em Lordaeron. Houve uma epidemia de contratempos, um após o outro. Acho que alguém, ou pior ainda, alguma coisa está caçando os grandes magos dessa Ordem secreta. E não apenas aqui, mas em Dalaran também, aposto.”

Khadgar percebeu que o velho campeão estava estudando seu rosto assim que falava, e como um estalo, lembrou que isso encaixava direitinho nos rumores que havia ouvido antes de deixar a Cidadela Violeta. Magos antigos repentinamente mortos e os altos escalões se apressando em abafar o ocorrido. O grande segredo entre os Kirin Tor: parte de um problema maior.

Sem perceber, Khadgar desviou o olhar para a cidade lá fora. “Dalaran também, ao que parece.” começou Lothar. “Não recebemos muitas notícias de lá, mas aposto que são bem parecidas, não?”

“Acha que o Senhor Medivh está em perigo?” indagou o aprendiz. O desejo em não dizer nada a Lothar foi corroendo-se pela preocupação óbvia mostrada pelo guerreiro.

“Acho que Medivh é o perigo encarnado.” recomeçou Lothar. “E admiro qualquer um que esteja disposto a ficar sob o mesmo teto que ele.” Apesar de parecer uma piada, Lothar não sorriu. “Mas sim, algo estranho está à solta e pode estar vinculado com os demônios, orcs, ou algo muito pior. Detestaria perder nossa melhor arma em um momento desses.”

Khadgar olhou para Lothar, tentando ler as rugas no rosto do homem mais velho. Estaria ele preocupado com o seu amigo, ou com a perda da proteção mágica que ele representava? A preocupação com a segurança de Medivh apenas, ou algo os espreitava? A face do campeão do Rei parecia uma máscara e seus olhos, de um azul marinho profundo, não davam nenhuma pista sobre o que pensava.

Khadgar havia esperado que Lothar fosse um espadachim simples, um cavaleiro devotado aos seus deveres, mas o campeão do Rei era muito mais do que isso. Ele o estava pressionando, procurando por pontos fracos, sondando informações, mas com qual propósito?

Medivh havia dito que precisava que alguém resguardasse o Guardião.

“Ele está bem.” disse, por fim. “Compartilho das suas preocupações, mas está tudo bem com ele e duvido que algo, ou alguém, seja capaz de machuca-lo.”

Os olhos impenetráveis de Lothar pareceram esmorecer por um breve momento. Ele ia falar algo mais para recomeçar a interrogação intrometida e amigável, mas um tumulto na torre atraiu a atenção de ambos para longe da discussão, das canecas vazias e dos ossos da ave devorada.

Medivh apareceu orgulhoso, seguido de servos e guardas. Todos reclamavam de sua presença, mas nenhum, sabiamente, dizia em voz alta, e, como resultado, seguiam o mago como a cauda de um cometa. O mago apressou-se pelo parapeito.

“Sabia que era uma criatura de hábitos, Lothar.” proferiu o mago. “Tinha certeza que estaria aqui tomando o seu chá da tarde!”.  O Magus deu um sorriso caloroso, mas o aprendiz percebeu que havia uma influência leve e quase ébria em seus passos. Medivh estava com um braço atrás de seu corpo, como se escondesse algo.

O amigo do mago levantou, preocupado. “Medivh, você está bem? O demônio...”

“Ah sim, o demônio.” disse Medivh, com brilho nos olhos e puxou seu prêmio ensanguentado. Lançou-o em direção de Lothar e Khadgar de uma maneira descontraída e traiçoeira.

A esfera vermelha girou enquanto voava, espalhando os últimos pedaços de miolo e sangue, antes de cair aos pés do campeão do Rei. Era o crânio de um demônio, a carne ainda atrelada a ele, com um sulco bem entre os chifres ovídeos, como se feito por um machado. A expressão do demônio, pensou o aprendiz, era tanto de espanto quanto de indignação.

“Talvez queira empalhá-lo.” disse Medivh. “Tive que queimar o resto, obviamente, não preciso nem falar o que os inexperientes podem fazer com um pouco de sangue de demônio.”

O aprendiz percebeu que o rosto do seu mestre estava mais esquelético do que antes e as linhas em volta dos olhos mais salientes. Lothar pareceu ter notado também e comentou. “Você o pegou bem rápido.”

“Brincadeira de criança!” respondeu. “Logo que Jovem Confiança aqui indicou como o demônio fugiu do castelo, era apenas segui-lo da base da torre até uma pequena escarpa. Antes de eu me dar conta já estava tudo acabado. Antes mesmo do demônio se dar conta também.”

“Vamos, então.” disse Lothar sorrindo calorosamente. “Devemos avisar o Rei. Haverá uma grande festa em sua homenagem, Med!”

“Temo que não iremos participar da diversão. Devemos voltar. Milhas a percorrer antes de um merecido descanso. Não é mesmo, aprendiz?”

Lothar olhou para Khadgar. Era um olhar interrogativo, quase suplicante. Medivh parecia calmo, mas esgotado. Também na expectativa de ser apoiado pelo seu aprendiz nesse momento.

O jovem tossiu. “Claro. Deixamos um experimento no fogo.”

“Certamente!”  respondeu Medivh, percebendo na hora a mentira. “Na pressa em chegar aqui, acabei esquecendo. Vamos nos apressar.” O mago virou e gritou para os cortesãos. “Preparem nossas montarias! Partiremos agora mesmo.” Os servos espalharam-se como um bando de codornas. Medivh voltou-se para Lothar. “Irá se desculpar em nosso nome à Sua Majestade, não é?”

O velho cavaleiro olhou para o mago, depois para Khadgar e depois para o mago novamente. Por fim suspirou e disse. “Claro. Permita-me leva-los até a torre, pelo menos.”

“Vá na frente. E não se esqueça do seu crânio. Ficaria com ele para mim, mas tenho outro igual.”

Lothar ergueu a cabeça com uma mão e passou por Medivh, em direção à torre. Assim que foi embora, Medivh pareceu desinflar. Parecia mais cansado do que antes, inclusive mais grisalho do que algumas horas atrás. Soltou um suspiro longo e dirigiu-se para a porta.

Khadgar o seguiu e segurou-o pelo braço. Foi um gesto sútil, mas o mago logo endireitou-se, recuando como se reagisse a um ataque. Virou-se para o jovem aprendiz e o olhar de Medivh parecia nebuloso quando encontrou os de Khadgar.

“Magus.” disse Khadgar.

“O que foi agora?” rebateu.

Pensou no que falar, como arriscar ser censurado pelo seu mestre. “Você não está bem.”

Era a coisa certa a se dizer. Medivh concordou lentamente e acrescentou. “Já estive melhor. Lothar também deve ter notado, mas ele não me afronta. Prefiro ir para casa do que ficar aqui.” Parou por um momento. “Fiquei doente por muito tempo neste lugar. Não pretendo repetir a experiência.”

Khadgar não ficou quieto, apenas concordou. Lothar estava parado na porta, esperando.

“Terá que guiar o caminho até Karazhan.” sussurrou o mago apenas para os ouvidos de seu aprendiz. “Esse clima de cidade desgasta muito e eu gostaria de tirar uma soneca.”





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fonte de tradução: World of Warcraft: The Last Guardian (No. 3) - 2006

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6 comentários:

Muito bom mesmo!!! Espero os próximos capitulos!!!

Infelizmente não depende de mim, mas vou passar o recado, obrigado!!!!

Não teve mais traduções? Terminou no 8 episódio do Ultimo Guardião?

mds quando sai o proximo capitulo??? To me sentindo orfão!!!

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