sábado, 1 de fevereiro de 2014

O Último Guardião - Capítulo 7 - Stormwind




Até então, os maiores edifícios que Khadgar já havia visto foram a Cidadela Violeta, na Ilha Cruciforme, nos arredores de Dalaran. As torres majestosas, os grandes salões dos Kirin Tor, coberta com ardósia espessa de coloração lápis-lazúli, que deu o nome à cidadela, eram motivo de orgulho para o mago. Em todas suas viagens por Lordaeron e Azeroth, nada, nem mesmo a Torre de Medivh, chegou perto da grandeza clássica da cidadela dos Kirin Tor.

Até o dia em que foi para Stormwind.

Voaram durante a noite, como da primeira vez, e agora estava convencido que adormeceu nas costas do grifo enquanto o guiava. Seja qual fosse o conhecimento que Medivh havia plantado nele, ainda funcionava, pois confiava na habilidade de conduzir o animal apenas com os joelhos. Ao contrário de antes, a mente não doía, apenas vibrava, como se o tecido tivesse cicatrizado, deixando uma marca. Reconhecia o aprendizado, mas sabia ser uma parte separada dele.

Acordou quando o sol coroou o horizonte atrás dele, assustado, fazendo a ave inclinar um pouco, afastando-se de Medivh. À sua frente, súbita e brilhante, estava Stormwind.

Era uma cidade de ouro e prata. Os muros pareciam ter brilho próprio durante a manhã, polido tão cuidadosamente como um castelão o faz com um cálice. O teto cintilava como se fosse cravejado com pedras preciosas.

O jovem piscou. Os muros tornaram-se meras pedras, embora polidas com muito lustre em alguns pontos e esculpidas em outros. Os telhados eram apenas de ardósia escura e o que pensava serem pedras, eram gotas de orvalho que refletiam o amanhecer como um arco-íris.

E mesmo assim Khadgar estava surpreso com o tamanho da cidade. Tão majestoso quanto qualquer coisa em Lordaeron, senão a mais majestosa, e visto daquela altura, parecia espalhar-se diante dele. Contou três conjuntos completos de muros em torno da fortaleza central, e paredes menores separavam os distritos. Para onde quer que olhasse, havia mais cidade abaixo dele.

Mesmo agora, nas primeiras horas da manhã, já havia atividade. Fumaça subia das fogueiras matutinas, e as pessoas já se aglomeravam nos mercados e áreas públicas. Carroças grandes eram arrastadas através dos portões principais, repleto de fazendeiros dirigindo-se para os campos limpos e preparados que entornavam em volta das muralhas da cidade.

Khadgar não conseguia identificar nem metade dos edifícios. Para ele, as torres poderiam ser tanto universidades quanto celeiros. Azenhas gigantes trabalhavam na afluente do rio, mas o jovem mago não sabia com qual propósito. Viu uma chama à sua direita, seria de uma forja, um dragão aprisionado ou um acidente, era um mistério.

Era a maior cidade que havia visto, e no seu coração estava o castelo de Llane.

Certamente era ele. Aqui as paredes pareciam feitas de ouro puro, adornadas com prata em volta das janelas. O telhado era de ardósia azul, tão intenso e luxuoso quanto uma safira, e nas milhares torres, Khadgar podia ver as flâmulas com a cabeça do leão de Azeroth, brasão da família do Rei Llane e símbolo da terra.

O complexo parecia uma pequena cidade, com inúmeros edifícios secundários, torres e salões. Abóbadas distribuíam-se entre os prédios, e eram tão compridas que, para o jovem, era impossível terem sido erigidas em ajuda de magia.

Tais estruturas só poderiam ser feitas com magia, pensou Khadgar. E pensou ser talvez esse o  motivo da presença de Medivh ser tão valorizada aqui.

O mago mais velho levantou a mão e circulou em volta de uma determinada torre que tinha um parapeito em seu piso superior. Medivh apontou para baixo uma, duas, três vezes. Queria que Khadgar pousasse primeiro.

Puxando a memória, o jovem conseguiu coordenadamente descer o grifo. A grande besta com cabeça de águia agitou as asas para trás, diminuindo a velocidade para um pouso sútil.

Havia uma comissão esperando por ele. Um grupo de escudeiros em fardas azuis avançou para tomar as rédeas e colocar um capuz pesado na cabeça dos animais. Memórias estranhas fizeram Khadgar pensar em quão semelhante era isso aos falcoeiros, cobrindo a visão das aves de rapina. O outro tinha um balde com tripas de vaca, que foram oferecidas com cuidado antes de serem arrebatadas pelos bicos famintos.

Khadgar deslizou das costas do grifo e foi recebido com afeição pelo próprio Lorde Lothar. O homem, já grande, parecia maior ainda trajado em sua túnica e capa, coberto com um peitoral gravado e o manto ornamentado pendurado em seu ombro.

“Aprendiz!” exclamou Lothar, sua mão gigante engolindo a do mago. “Bom saber que ainda tem seu emprego!”

“Meu senhor,” respondeu Khadgar, tentando não estremecer com a pressão do aperto. “Voamos a noite toda para chegar aqui. Eu não...”

O resto da frase do jovem foi absorvido por batidas de asas e o grito de pânico de um grifo. A montaria de Medivh despencou do céu, e o pouso do Mago foi menos gracioso. O enorme predador caiu com toda a força na torre e quase para o outro lado, e Medivh puxou as rédeas com força. As garras do grifo fincaram nas ameias da parede, quase derrubando o mago.

O aprendiz não esperou a reação do amigo de seu mestre e adiantou-se, seguido pelo líder dos escudeiros e de Lothar.

Medivh já havia saído de sua montaria e entregado as rédeas ao primeiro escudeiro no momento que havia chegado a ele. “Maldito vento de través!”, disse o Mago, irritado. “Avisei que esse não era um local apropriado para um aviário, mas ninguém ouve o mago por aqui. Bom pouso, rapaz.” acrescentou, como uma reflexão tardia enquanto servos tentavam acalmar a ave.

“Med,” disse Lothar, estendendo a mão para saudá-lo. “Fico feliz que tenha vindo.”

O mago apenas fez uma careta. “Vim o mais rápido que pude,” retrucou bruscamente o mago, e Khadgar não entendeu o motivo da reação. “Tem que se virar sem mim, ás vezes, sabia?”

Se Lothar ficou surpreso com a atitude de Medivh, não transpareceu. “De qualquer maneira, é bom vê-lo. Sua Majestade...”

“Vai ter que esperar.” concluiu o mago. “Leve-me para a câmara, agora. Não sei o caminho. Você disse que foram Huglar e Hugarin. Por aqui, então.” E o Mago saiu, indo em direção das escadarias laterais. “Cinco níveis abaixo, uma ponte em forma de cruz e depois três níveis acima! Lugar horrível para um aviário!”

Khadgar olhou para Lothar. O homem coçou a careca com a mão roliça e balançou a cabeça. Em seguida seguiu o mago, com Khadgar no seu encalço.

Medivh sumiu assim que chegaram ao térreo, apesar de uma chuva de queixas e maldições ocasionais poderem ser ouvidas logo a frente.

“Ele está de bom humor,” disse Lothar. “Irei levá-lo à câmara dos magos. Iremos encontrá-lo lá.”

“Estava muito agitado noite passada.” desculpou-se o aprendiz. “Havia partido, e o seu chamado chegou a Karazhan logo após ele ter voltado.”

“Chegou a te falar do que se tratava, Aprendiz?” perguntou Lothar. Khadgar negou com a cabeça.

Anduin Lothar franziu a testa. “Dois dos grandes feiticeiros de Azeroth estão mortos, seus corpos tão queimados que não estão reconhecíveis, os corações arrancados do peito. Mortos em sua câmara. E há evidência de...” e o Campeão de Stormwind hesitou por um momento, como se estivesse escolhendo as palavras. “Há evidências de atividade demoníaca. E foi esse o motivo para o envio do mensageiro mais rápido para buscar Medivh. Talvez ele seja capaz de nos dizer o que aconteceu.”

“Onde estão os corpos?”, gritou o Mago. Lothar e Khadgar o haviam alcançado. Estavam perto do topo de outra torre do castelo e do outro lado a cidade estendia-se diante deles na janela da sacada.

O quarto estava uma bagunça, e parecia que havia sido vasculhado por orcs desleixados. Todos os livros foram tirados das prateleiras, todos os pergaminhos desenrolados, e em muitos rasgados. Aparelhos de alquimia foram esmagados, cataplasmas e pós espalhados, e móveis quebrados.

No centro da sala havia um anel de poder e uma inscrição cravada no chão. No anel havia dois círculos com um centro em comum, com palavras de poder incisadas entre eles. As incisões eram fundas e estavam ocupadas com um líquido escuro e pegajoso. Havia duas marcas de queimaduras no piso, na forma de um humano, entre o círculo e a janela.

Havia apenas um propósito para esses tipos de anéis, até onde sabia. O bibliotecário da Cidadela Violeta sempre avisou sobre eles.

“Onde estão os corpos?” repetiu Medivh, e Khadgar estava feliz por não ser o responsável em fornecer as respostas. “Onde estão os restos de Huglar e Hugarin?”

“Foram retirados logo depois de terem sido encontrados.” respondeu com calma Lothar. “Não seria apropriado deixá-los aqui. Não sabíamos quando chegaria.”

“Você quis dizer que não sabiam se eu chegaria, certo?” rebateu Medivh. “Ok, tudo bem. Algo ainda pode ser feito aqui. Quem entrou nesse quarto?”

“Os Mestres-Conjuradores Huglar e Hugarin...” começou Lothar.

“Mas isso é obvio,” respondeu sarcasticamente Medivh. “Tinham que ter estado aqui se morreram aqui. Quem mais?”

“Um dos servos os encontrou.” continuou Lothar. “E eu fui chamado. E depois trouxe vários guardas para mover os corpos. Não foram enterrados ainda, se quiser examiná-los.”

Medivh já estava perdido em pensamento. “Humm? Os corpos ou os guardas? Não importa, trataremos disso mais tarde. Então foram o servo, você e cerca de quatro guardas? E agora eu e meu aprendiz. Ninguém mais?”

“Não que eu consiga lembrar.” disse Lothar.

O mago fechou os olhos e murmurou algumas palavras. Poderia ter sido tanto um feitiço quanto uma maldição. Os olhos abriram rápido. “Interessante. Jovem Confiança!”

Khadgar respirou fundo. “Lorde Mago.”

“Preciso da sua juventude e inexperiência. Meus olhos exaustos podem ver o que estou esperando ver. Preciso de olhos frescos. Não tenha medo de fazer perguntas agora. Venha e fique no centro da sala. Não, não cruze o círculo. Não sabemos se tem algum encantamento ativo ainda. Fique aqui. Agora. O que você sente?”

“Eu vejo um quarto destruído.” começou o jovem.

“Eu não disse ver,” rebateu Medivh. “Eu disse sentir.”

Khadgar tomou fôlego e conjurou um feitiço pequeno, que aguçava os sentidos e p ajudou a encontrar artigos perdidos. Era uma divinação simples, que havia usado na Cidadela centenas de vezes. Era boa para encontrar coisas que os outros queriam manter escondidos.

Khadgar já havia sentido algo diferente, logo nas primeiras palavras. Havia uma lentidão agindo diretamente na magia. Normalmente a magia dava a sensação de leveza e energia, mas essa era viscosa, quase líquida. Khadgar nunca sentiu nada parecido, e perguntou-se se era por causa dos círculos de poder, ou das conjurações e truques dos magos falecidos.

Era uma atmosfera espessa, como o ar velho em um quarto trancado por anos. O jovem tentou recobrar as energias, mas parecia resistir, para mitigar seus desejos apenas com muita resistência.

O rosto do aprendiz ficou rígido, tentando sugar mais poder do quarto, das energias mágicas para si. Era um feitiço simples. Além do mais, deveria ser mais fácil em um lugar onde tais conjurações eram comuns.

E de repente o mago foi tomado por um odor fétido de magia. Estava sobre e em volta dele. Como se uma parede tivesse caído sobre suas costas. A força das trevas, a magia pesada que o envolvia como um cobertor grosso, esmagando o feitiço sob ele e fazendo-o literalmente cair de joelhos. Sem perceber, gritou.

Medivh estava ao seu lado, ajudando o mago a ficar de pé de novo. “Calma, calma.” disse o mago. “Não esperava que fosse tão bem sucedido. Boa tentativa. Excelente trabalho.”

“O que era?” conseguiu dizer Khadgar, recuperando o fôlego. “Não senti nada como isso antes. Pesado. Resistente. Sufocante.”

“Isso é uma boa notícia para você.” respondeu Medivh. “Muito bom ter sentido. E muito bom ter aguentado. A magia está bem distorcida aqui, uma sobra do que ocorreu aqui antes.”

“Como uma assombração?” questionou o jovem. “Mesmo em Karazhan, eu nunca...”

“Não assim,” começou o Mago. “Algo muito pior. Os dois magos que aqui jaziam estavam evocando demônios. É a mancha que sente aqui, essa magia pesada. Um demônio esteve aqui. E foi isso que matou Huglar e Hugarin, os pobres e poderosos idiotas.”

Houve um momento de silêncio e Lothar disse, “Demônios? Nas torres reais? Não posso acreditar...”

“Pois acredite,” respondeu Medivh. “Não importa o quão experiente e sábio, sensato e excelente, poderoso e eficiente, há sempre um fragmento a mais de poder, um pouco mais de conhecimento, mais um segredo a ser aprendido. Acho que esses dois caíram nessa armadilha, e invocaram forças do Imenso Além, e pagaram o preço. Idiotas. Eram colegas e amigos, e também idiotas.”

“Mas, como?” contrapôs Lothar. “De certo que havia proteções. Sentinelas. Este é um círculo místico de poder.”

“Fácil de violar, fácil de destruir,” respondeu Medivh, inclinando sobre o sangue seco dos dois magos. Abaixou e pegou uma palha fina que estava entre duas pedras. “Ahá! Uma simples palha de vassoura. Se isso estava aqui antes deles começarem o ritual, nem todas as súplicas ou amuletos seriam capazes de protegê-los. O demônio consideraria isso um arco, não um círculo, e sendo assim, uma porta de entrada para este mundo. Apareceria envolto em chamas infernais e atacaria os pobres coitados que lhe trouxeram ao mundo. Já vi acontecer antes.”

Khadgar balançou a cabeça. A escuridão que o pressionava parecia diminuir um pouco e tentou recuperar a calma. Olhou ao redor da sala. Estava um desastre – o demônio havia destruído tudo. Se havia uma palha de vassoura quebrando o círculo, certamente teria sido removida para outro lugar durante o ataque.

“Como foram encontrados os corpos?” perguntou o jovem.

“Como é?” disse Medivh, tão rude que Khadgar quase pulou.

“Desculpe.” respondeu com rapidez. “Disse que eu poderia fazer perguntas”

“Sim, sim, claro.” afirmou o Mago, diminuindo um pouco o tom rude. Para o Campeão do Rei, questionou. “Bem, Anduin Lothar, como os corpos foram encontrados?”

“Quando cheguei, estavam no chão. O servo moveu-os.”

“Estavam de bruços, senhor?” perguntou Khadgar, o mais calmo que conseguia. Podia sentir o olhar gélido do seu mestre. “As cabeças apontadas para o círculo ou a janela?”

A expressão de Lothar ficou envolta em memórias. “Apontadas para o círculo. E de bruços. Sim, com certeza. Ficaram tão gravemente queimados, que precisamos virá-los para ter certeza que eram Huglar e Hugarin.”

“Aonde quer chegar, Jovem Confiança?” disse o Mago, agora sentado na janela coçando a barba.

Khadgar olhou para as marcas de queimadura entre o círculo de proteção defeituoso e a janela, e tentou pensar neles como corpos, e não como magos outrora vivos. “Se bater em alguém de frente, este cairá para trás. Se bater por trás, cairá para frente. A janela estava aberta quando chegou?”

Lothar olhou pela janela da sacada, a cidade a sua frente esquecida por um momento. “Sim. Não. Sim, acho que estava. O servo poderia tê-lo aberta. O cheiro estava horrível – que foi o que chamou atenção para investigarmos. Posso perguntar.”

“Não há necessidade.” ponderou Medivh. “É provável que a janela estivesse aberta quando o servo entrou.” O Mago levantou e caminhou até as marcas no piso. “Então, Jovem Confiança, acha que Huglar e Hugarin estavam aqui, observando o círculo, e algo entrou pela janela, atacando-os por trás?” Como demonstração, Medivh bateu contra a parte de trás da cabeça. “Caíram para frente e foram queimados nessa posição?”

“Sim, senhor.” disse Khadgar. “Quer dizer, é uma teoria.”

“É boa.” disse Medivh. “Mas temo que esteja errada. Em primeiro lugar, os magos estariam olhando para o nada, a menos que estivessem olhando para o círculo. Portanto, estavam invocando um demônio. Esse círculo não teria outra utilização.”

“Mas..” começou o jovem e o Mago travou as palavras em sua garganta com um olhar severo.

“E,” continuou Medivh “sua teoria funcionaria com um agressor com uma maça ou uma clava, não com as energias obscuras dos demônios. Se a besta cuspia fogo, pegaria ambos de pé, matando-os e só depois incendiando-os; os corpos caíram de bruços. Disse que os corpos estavam queimados na frente e atrás?” Essa pergunta foi direcionada a Lothar.

“Sim.” respondeu Lothar.

Medivh o calou com um gesto. “Demônios cospem fogo. Queimam a frente. Huglar, ou Hugarin, caiu para frente e as chamas se espalharam pelas costas. A não ser que Hugarin, ou Huglar, fosse atingido por trás, e depois foram virados para ter certeza que a frente estava queimada, então os virou de novo. Dificil, demônios não são tão metódicos.”

Khadgar corou de vergonha. “Desculpe. Era apenas uma teoria.”

“Uma boa.” disse rapidamente. “Só falha, apenas isso. A janela deveria estar aberta, porque foi como o demônio deixou a torre. E está a solta na cidade agora.”

Lothar xingou e disse. “Tem certeza?”

Medivh assentiu. “Absoluta. Mas deve estar escondido. Mesmo matar de surpresa dois tolos como Huglar e Hugarin exigiria as habilidades mais poderosas da criatura.”

“Posso organizar grupos de busca em uma hora.” ponderou Lothar.

“Não.” disse o mago. “Quero fazer isso sozinho. Não adianta desperdiçar boas vidas. Vou querer ver os restos mortais, claro. Irá me ajudar a revelar com o que estamos lidando.”

“Removemos para uma câmara fria, na adega.” disse Lothar. “Posso te levar lá.”

“Daqui a pouco.” informou Medivh. “Quero olhar por aí. Poderia dar a mim e meu aprendiz dez minutos sozinhos?”

Lothar hesitou e disse. “Claro. Estarei lá fora.” Antes de sair, deu um olhar rápido para Khadgar.

Depois do som da trava na porta, houve silêncio. Medivh ia de mesa em mesa, vasculhando os tomos despedaçados e papéis rasgados. Segurou uma correspondência com um selo púrpura e balançou a cabeça. Lentamente, desintegrou o papel que estava em suas mãos.

“Em países civilizados,” começou com a voz ligeiramente tensa, “Aprendizes não discordam de seus mestres. Pelo menos não em público.” Virou-se para Khadgar e o jovem viu que a expressão do homem mais velho era tempestuosa.

“Perdoe-me.” disse Khadgar. “Você disse que eu deveria fazer perguntas, e a posição dos corpos parecia estar errado, mas agora que mencionou como os corpos foram queimados...”

Medivh fez um gesto e o jovem calou-se. Ficou parado por um momento e expirou lentamente. “Basta. Fez a coisa certa, nem mais nem menos do que havia pedido. E se não tivesse feito isso, eu não teria percebido que o demônio fugiu pela janela da torre e perderia tempo procurando pelo castelo. Você fez perguntas por que não sabe muito sobre demônios, e isso é ignorância. E isso eu não irei tolerar.”

O Mago olhou para Khadgar, mas havia um sorriso no canto da boca. O jovem, certo de que a tempestade havia passado, sentou-se em um banquinho. Sem perceber, disse, “Lothar...”

“Vai esperar.” respondeu. “Anduin Lothar sabe esperar. Agora, o que aprendeu sobre demônios em sua estadia na Cidadela Violeta?”

“Já ouvi as lendas,” começou o jovem, “Nos primórdios, havia demônios na terra e heróis valorosos surgiram para expulsá-los.” Pensou na imagem da mãe de Medivh transformando-os em pó e enfrentando o seu Senhor, mas não disse nada. Não seria prudente irritá-lo agora que havia se acalmado.

“Isso é o básico.” respondeu o Mago. “É o que contamos para as massas. Sabe algo além disso?”

Khadgar tomou fôlego. “Os ensinamentos oficiais na Cidadela, em Kirin Tor, a demonologia é para ser prevenida, evitada e repudiada. Qualquer tentativa de evocar um demônio é para ser descoberta e interrompida imediatamente e os envolvidos devem ser expulsos. Ou pior. Havia estórias entre os jovens estudantes.”

“Baseada em fatos.” completou Medivh. “Mas você é um rapaz curioso, presumo que saiba algo mais.”


O aprendiz inclinou a cabeça e pensou, escolhendo as palavras. “Korrigan, o bibliotecário acadêmico, tinha uma coleção extensa...de material à sua disposição.”

“E precisava de alguém para ajudar organizá-la,” disse Medivh, seco. Khadgar deve ter reagido, pois o mestre acrescentou, “Foi apenas um palpite, Jovem Confiança.”

“O material é em sua maioria de lendas folclóricas e relatórios das autoridades locais envolvendo adoradores de demônios. A maior parte era sobre indivíduos cometendo atos proibidos em nome de algum demônio antigo das lendas. Nada sobre como invocar um de verdade. Sem feitiços, sem escritos mágicos.” E Khadgar apontou para o círculo. “Sem rituais.”

“É claro,” respondeu Medivh. “Até mesmo Korrigan não imporia isso a um estudante. Se ele tem algum material sobre isso, manteria separado.”

“E então, a crença geral é que quando os demônios foram derrotados, foram expulsos por completo deste mundo. Foram enxotados do universo de luz dos vivos de volta para seu próprio domínio.”

“O Imenso Além,” finalizou Medivh, recitando a frase como se fosse uma prece.

“Ainda estão vagando por aí, diz a lenda.” continuou o jovem, “e querem voltar. Dizem que vêm para aqueles com espírito fraco durante o sono, encorajando-os a encontrar feitiços antigos e fazer sacrifícios. Muitas vezes abrir caminhos para que voltem por completo. Outros dizem que querem adoradores e sacrifícios para que o mundo volte a ser como antes, sangrento e violento para depois retornarem.”

Medivh ficou em silêncio, coçando a barba e então disse. “Algo mais?”

“Sim. Detalhes e histórias individuais. Já vi esculturas de demônios, fotos, diagramas.” De novo o jovem sentiu necessidade de contar para Medivh sobre a visão e o exército. Em vez disso, disse, “e há aquele poema épico sobre Aegwynn lutando contra uma horda de demônios em uma terra distante.”

A alusão a isso trouxe um sorriso gentil e declarado ao rosto de Medivh. “Ah, sim, ‘A Canção de Aegwynn’. Encontrará esse poema em muitos alojamentos de magos poderosos, sabia?”

“Meu professor, Lorde Guzbah, estava interessado nele.” disse o aprendiz.

“Verdade?” perguntou Medivh, sorrindo. “Com todo o respeito, não sei se Guzbah está pronto para lê-lo. Pelo menos não a versão completa.” Levantou as sobrancelhas. “O que você sabe é a verdade. Muitas pessoas contam em formas de lendas e contos de fadas, mas sabe tanto quanto eu que eles são reais e estão por aí, e sim, são uma ameaça para aqueles que andam por esse mundo iluminado, assim como em outros. Eu acho, aliás, tenho certeza que o seu mundo de céu avermelhado era outro lugar, uma terra diferente, do outro lado do Imenso Além, que é uma prisão para esses demônios, um lugar sem luz ou ajuda, e são muito invejosos e querem desesperadamente voltar.”

Khadgar assentiu e Medivh continuou, “Mas sua suposição de que as vítimas têm espírito fraco é errônea, apesar de bem intencionada. Há uma grande quantidade de pessoas corruptas que invocam uma força demoníaca contra um amante antigo, ou mercadores estúpidos que queimam a nota de um devedor com uma vela preta, pronunciando com más intenções o nome de algum demônio antigo. Assim como há aqueles que andam por vontade própria a caminho do abismo, que se sentem seguros, certos e confiantes de que estão além de qualquer sedução ou ameaça, e poderosos o suficiente para aproveitar as energias demoníacas que oscilam nos confins do mundo. E como você sabe, eles são muito mais perigosos, já que meia falha em um feitiço é pior do que uma falha completa.”

Khadgar apenas concordou. “Mas Huglar e Hugarin eram magos poderosos...”

“Os mais poderosos de Azeroth,” completou Medivh. “Mais sábios. Os melhores magos, e conselheiros mágicos do próprio Rei Llane.”

“Não deveriam ter sido mais espertos?” perguntou Khadgar.

“Era de se esperar,” respondeu o Mago. “E ainda assim estamos aqui, em seu quarto destruído e os corpos queimados na adega.”

“Então por que fizeram isso?” Khadgar franziu o cenho, tentando não ser ofensivo. “Se eram tão sábios, por que tentaram invocar um demônio?”

“Por vários motivos.” disse Medivh, suspirando. “Húbris, o orgulho falso que acontece antes da derrocada. Excesso de confiança, tanto em cada um como dobrado por estarem trabalhando em conjunto. E acima de tudo, medo, eu acho.”

“Medo?” Perplexo, Khadgar olhou para Medivh.

“Medo do desconhecido,” ponderou o Mago. “Do conhecido. De coisas mais poderosas do que eles.”

Khadgar aquiesceu. “O que poderia ser mais poderoso do que os dois assistentes mais habilidosos e cultos de Azeroth?”

“Ah,” respondeu Medivh, e um pequeno sorriso apareceu em seu rosto. “Seria eu. Aqueles dois se mataram para trazer um demônio, brincando com forças que deveriam ter sido deixadas quietas, por que me temiam.”

“Você?” O tom de Khadgar saiu mais surpreso do que pretendia. Por um momento, receou que tivesse ofendido o mago mais uma vez.

Medivh, porém, inspirou fundo e soltou o ar lentamente. Depois, disse, “Eu. Eram tolos, mas também tenho minha parcela de culpa. Vamos rapaz, Lothar pode esperar. É hora de eu contar a você a história dos Guardiões e da Ordem de Tirisfal, que é a única resistência entre nós e a Escuridão.”







fonte de imagem: arquivo pessoal. 
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fonte de tradução: World of Warcraft: The Last Guardian (No. 3) - 2006

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2 comentários:

Em breve se der certo ainda esta semana, senão na outra, obrigado por acompanhar.

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