“Algum problema?” perguntou Medivh, e Khadgar estava sob o olhar do mago de novo. Sentiu-se como um besouro que andou sem perceber pela mesa de um colecionador de insetos. Metade da carta já havia queimado e a cera do selo estava derretendo, pingando na laje.
Sabia que estava com os olhos arregalados, o rosto pálido e boca aberta. Tentou expirar o ar, mas apenas saiu um som chiado.
“Está passando mal? Moroes, esse rapaz está doente?” disse com as sobrancelhas franzidas e um olhar confuso.
“Sem ar, talvez,” respondeu o castelão com sinceridade. “A subida foi longa.”
Por fim Khadgar conseguiu juntar forças para dizer, “A carta!”
“Ah sim,” disse Medivh. “Obrigado, quase esqueci.” Foi até o braseiro e jogou o papel em chamas sobre o carvão. Uma bola de chama azul subiu e depois diminuiu para um fogo comum dando um clima aconchegante e brilhante ao cômodo. Já não havia nenhum sinal da carta de introdução e do selo carmesim com o símbolo dos Kirin Tor.
“Mas você não leu!” proferiu Khadgar e hesitou, “Quis dizer, senhor, com todo o respeito...”
O mestre riu e acomodou-se numa cadeira feita de madeira escura e lona. Sob a luz do braseiro, pôde ver o contorno do sorriso, mas não foi o bastante para relaxar.
Medivh inclinou e disse, “’Ó Grande e Respeitável Mago Medivh, Mestre-Mago de Karazhan, transmito-lhe saudações dos Kirin Tor, a academia mágica, guilda e sociedade mais reconhecida e influente, conselheira de reis, professores e reveladores de segredos. E continuam nessa linha, vangloriando-se a cada frase. Como estou me saindo?”
“Não sei,” disse Khadgar. “Fui instruído a-“
“Não abrir a carta.” completou Medivh. “Mas abriu mesmo assim.”
O mestre-mago levantou os olhos para observar o jovem, deixando-o desconfortável. Os olhos de Medivh cintilaram e Khadgar imaginou se o mago seria capaz de conjurar feitiços sem que ninguém percebesse.
O aprendiz concordou lentamente com a cabeça, evitando responder.
Medivh gargalhou. “Quando?”
“Na...na viagem de Lordaeron para Kul Tiras,” respondeu sem saber se isso irritaria ou divertiria seu possível mestre. “Ficamos parados por dois dias e...”
“Foi tomado pela curiosidade,” finalizou Medivh. Sob a barba grisalha deu um sorriso sincero. “Eu teria aberto assim que estivesse longe da Cidadela Violeta de Dalaran.”
Khadgar respirou fundo e disse, “Pensei nisso, mas achei que os feitiços ainda estariam ativos naquela distância.”
“E você queria estar o mais longe possível deles e de qualquer mensagem avisando que você abriu a carta. E você restaurou-a tão bem a ponto de enganar uma análise apressada, certo de que eu logo quebraria o selo sem notar a adulteração.” Sorriu brevemente e fechou a cara, concentrado. “Como fiz isso?” perguntou.
Khadgar piscou. “Fez o que, senhor?”
“Como sabia o que estava escrito na carta?” disse o mago. “A carta que queimei dizia que eu ficaria impressionado com a inteligência e a dedução do jovem Khadgar. Vamos, me impressione.”
O jovem mago olhou Medivh e o sorriso jovial havia desaparecido. Seu rosto parecia a de um deus primitivo crítico e implacável. Os olhos que estavam com um traço de alegria agora pareciam ocultar uma raiva escondida. As sobrancelhas juntas lembravam uma nuvem carregada de relâmpagos.
Khadgar gaguejou e por fim disse, “Você leu a minha mente.”
“É possível.” sentenciou Medivh. “Mas está incorreto. Está uma pilha de nervos e isso atrapalha a leitura da mente. Primeiro erro.”
“Você já recebeu esse tipo de carta antes. Dos Kirin Tor. Sabe o que vem escrito nelas.”
“Também possível.” disse o mago. “Como já recebi tais cartas e sempre tendem a ser presunçosas. Mas você, assim como eu, sabe as palavras exatas. Uma boa tentativa, bem obvia, mas incorreta. Segundo erro.”
Os lábios de Khadgar formaram uma linha firme. O coração disparado em seu peito. “Empatia.” arriscou finalmente.
Os olhos de Medivh continuavam enigmáticos. “Explique.”
Khadgar respirou fundo. “Uma das leis mágicas. Quando alguém entrega algo, deixa uma parte agregada da própria aura mágica ou vibração. As auras variam de pessoa para pessoa e é possível se conectar a um afetando o outro. E dessa maneira é possível usar uma madeixa em uma simpatia de amor, ou uma moeda pode ser rastreada e devolvida a seu dono.”
Medivh estreitou os olhos e coçou o queixo barbudo. “Continue.”
O jovem parou, sentindo o peso dos olhos de Medivh pressionando-o. Tinha aprendido isso nas palestras. Estava com meio caminho andado. Mas como Medivh usou para descobrir...
“Quanto mais alguém usa um item, maior a relevância,” começou. “Portanto quando é muito usado ou muito importante a empatia será mais forte.” As palavras saiam em conjunto e mais rápido agora. “Então um documento escrito por alguém terá mais aura do que um pergaminho vazio, e a pessoa está concentrada no que escreve, então...” Esperou organizar as ideias e continuou. “Estava lendo mentes, mas não a minha e sim a do escriba que escreveu a carta na hora em que o fazia, assimilou seus pensamentos reforçando as palavras.”
“Sem precisar abrir o documento,” disse Medivh e luzes voltaram a dançar em seus olhos. “E como esse truque pode ser útil para um acadêmico?”
Piscou e desviou sua atenção do mago tentando evitar o olhar penetrante. “Você pode ler livros sem ter que ler os livros.”
“Muito valioso para um pesquisador.” disse o mago. “Pertence a uma comunidade de acadêmicos. Por que não faz isso?”
“Porque....porque...” pensou no velho Korrigan, que podia achar qualquer coisa na biblioteca, até mesmo uma nota minúscula. “Apenas os mais antigos fazem isso.”
Medivh aquiesceu. “E o motivo é...”
Khadgar pensou e balançou a cabeça.
“Quem escreveria se todo o conhecimento pode ser sugado com uma distorção mental ou uma magia?” sugeriu o mago. Sorriu. Khadgar percebeu que estava segurando a respiração. “Você não é ruim. Não mesmo. Conhece seus contra feitiços?”
“Até o quinto rol,” disse Khadgar.
“Consegue conjurar uma seta mística?” perguntou Medivh.
“Uma ou duas, mas por drenagem.” respondeu vendo que a conversa estava começando a ficar séria.
“E seus elementais primários?”
“Sei todos, mas o de fogo é o mais forte.”
“Magia natural?” perguntou ao jovem. “Amadurecimento, seleção, colheita? Consegue pegar uma semente e extrair sua juventude até virar uma flor?”
“Não senhor. Fui treinado na cidade.”
“Pode fazer um homúnculo?”
“A doutrina desaprova, mas sei os princípios envolvidos.” disse Khadgar. “Se está curioso...”
Os olhos de Medivh brilharam por um instante e disse, “Você velejou de Lordaeron até aqui. Qual tipo de embarcação?”
Sentiu tontura com a súbita mudança de assunto. “Sim, um veleiro Tirassiano, a Brisa Graciosa.” respondeu.
“Na...na viagem de Lordaeron para Kul Tiras,” respondeu sem saber se isso irritaria ou divertiria seu possível mestre. “Ficamos parados por dois dias e...”
“Foi tomado pela curiosidade,” finalizou Medivh. Sob a barba grisalha deu um sorriso sincero. “Eu teria aberto assim que estivesse longe da Cidadela Violeta de Dalaran.”
Khadgar respirou fundo e disse, “Pensei nisso, mas achei que os feitiços ainda estariam ativos naquela distância.”
“E você queria estar o mais longe possível deles e de qualquer mensagem avisando que você abriu a carta. E você restaurou-a tão bem a ponto de enganar uma análise apressada, certo de que eu logo quebraria o selo sem notar a adulteração.” Sorriu brevemente e fechou a cara, concentrado. “Como fiz isso?” perguntou.
Khadgar piscou. “Fez o que, senhor?”
“Como sabia o que estava escrito na carta?” disse o mago. “A carta que queimei dizia que eu ficaria impressionado com a inteligência e a dedução do jovem Khadgar. Vamos, me impressione.”
O jovem mago olhou Medivh e o sorriso jovial havia desaparecido. Seu rosto parecia a de um deus primitivo crítico e implacável. Os olhos que estavam com um traço de alegria agora pareciam ocultar uma raiva escondida. As sobrancelhas juntas lembravam uma nuvem carregada de relâmpagos.
Khadgar gaguejou e por fim disse, “Você leu a minha mente.”
“É possível.” sentenciou Medivh. “Mas está incorreto. Está uma pilha de nervos e isso atrapalha a leitura da mente. Primeiro erro.”
“Você já recebeu esse tipo de carta antes. Dos Kirin Tor. Sabe o que vem escrito nelas.”
“Também possível.” disse o mago. “Como já recebi tais cartas e sempre tendem a ser presunçosas. Mas você, assim como eu, sabe as palavras exatas. Uma boa tentativa, bem obvia, mas incorreta. Segundo erro.”
Os lábios de Khadgar formaram uma linha firme. O coração disparado em seu peito. “Empatia.” arriscou finalmente.
Os olhos de Medivh continuavam enigmáticos. “Explique.”
Khadgar respirou fundo. “Uma das leis mágicas. Quando alguém entrega algo, deixa uma parte agregada da própria aura mágica ou vibração. As auras variam de pessoa para pessoa e é possível se conectar a um afetando o outro. E dessa maneira é possível usar uma madeixa em uma simpatia de amor, ou uma moeda pode ser rastreada e devolvida a seu dono.”
Medivh estreitou os olhos e coçou o queixo barbudo. “Continue.”
O jovem parou, sentindo o peso dos olhos de Medivh pressionando-o. Tinha aprendido isso nas palestras. Estava com meio caminho andado. Mas como Medivh usou para descobrir...
“Quanto mais alguém usa um item, maior a relevância,” começou. “Portanto quando é muito usado ou muito importante a empatia será mais forte.” As palavras saiam em conjunto e mais rápido agora. “Então um documento escrito por alguém terá mais aura do que um pergaminho vazio, e a pessoa está concentrada no que escreve, então...” Esperou organizar as ideias e continuou. “Estava lendo mentes, mas não a minha e sim a do escriba que escreveu a carta na hora em que o fazia, assimilou seus pensamentos reforçando as palavras.”
“Sem precisar abrir o documento,” disse Medivh e luzes voltaram a dançar em seus olhos. “E como esse truque pode ser útil para um acadêmico?”
Piscou e desviou sua atenção do mago tentando evitar o olhar penetrante. “Você pode ler livros sem ter que ler os livros.”
“Muito valioso para um pesquisador.” disse o mago. “Pertence a uma comunidade de acadêmicos. Por que não faz isso?”
“Porque....porque...” pensou no velho Korrigan, que podia achar qualquer coisa na biblioteca, até mesmo uma nota minúscula. “Apenas os mais antigos fazem isso.”
Medivh aquiesceu. “E o motivo é...”
Khadgar pensou e balançou a cabeça.
“Quem escreveria se todo o conhecimento pode ser sugado com uma distorção mental ou uma magia?” sugeriu o mago. Sorriu. Khadgar percebeu que estava segurando a respiração. “Você não é ruim. Não mesmo. Conhece seus contra feitiços?”
“Até o quinto rol,” disse Khadgar.
“Consegue conjurar uma seta mística?” perguntou Medivh.
“Uma ou duas, mas por drenagem.” respondeu vendo que a conversa estava começando a ficar séria.
“E seus elementais primários?”
“Sei todos, mas o de fogo é o mais forte.”
“Magia natural?” perguntou ao jovem. “Amadurecimento, seleção, colheita? Consegue pegar uma semente e extrair sua juventude até virar uma flor?”
“Não senhor. Fui treinado na cidade.”
“Pode fazer um homúnculo?”
“A doutrina desaprova, mas sei os princípios envolvidos.” disse Khadgar. “Se está curioso...”
Os olhos de Medivh brilharam por um instante e disse, “Você velejou de Lordaeron até aqui. Qual tipo de embarcação?”
Sentiu tontura com a súbita mudança de assunto. “Sim, um veleiro Tirassiano, a Brisa Graciosa.” respondeu.
“Vindo de Kul Tiras,” concluiu o mago. “Tripulação humana?”
“Sim.”
“Chegou a conversar com eles?” E Khadgar percebeu a mudança de conversa para interrogatório de novo.
“Um pouco.” completou. “Acho que se divertiram com meu sotaque.”
“A tripulação de Kul Tiras se diverte com facilidade. Algum não humano na embarcação?”
“Não senhor.” replicou. “Os Tirassianos contaram estórias sobre homens peixes. São chamados de Murlocs. São reais?”
“São sim.” disse o Mago. “Qual outra raça encontrou? Além de variações de humanos.”
“Alguns gnomos estiveram em Dalaran.” disse o jovem. “E encontrei artífices anões na Cidadela Violeta. Conheço dragões apenas das lendas; eu vi crânio de um dragão em uma das academias.”
“E quanto a trolls e goblins?” questionou Medivh.
“Trolls. Há quatro tipos deles. Pode haver um quinto.”
“Isso seria uma das bobagens que Alonda ensina.” resmungou Medivh, mas acenou para que Khadgar continuasse.
“Trolls são selvagens e maiores que os humanos. Altos e rígidos, com características alongadas. E...” Pensou por mais um momento. “Organização tribal. Foram quase que totalmente varridos das terras civilizadas, e praticamente extintos de Lordaeron.”
“Goblins?”
“Bem menores, do tamanho dos anões. São tão criativos quanto esses, mas mais destrutivos. Destemidos. Li que toda a raça é louca.”
“Apenas os mais espertos.” disse Medivh. “Conhece sobre os demônios?”
“Claro senhor.” disse rapidamente. “Das lendas, quis dizer. E sei as abjurações e proteções próprias. Todos os magos de Dalaran são ensinados desde o primeiro dia de treinamento.”
“Mas nunca invocou um,” instigou Medivh. “ou esteve presente quando alguém o fez.”
Khadgar piscou imaginando se seria uma pegadinha. “Não senhor. Nunca pensaria em fazer isso.”
“Não duvido.” respondeu o Mago. “Que pensaria, é isso. Sabe o que é um Guardião?”
“Um Guardião?” perguntou e viu a conversa tomar outro rumo. “Um vigia? Um guarda? Talvez outra raça? É um tipo de monstro? Quem sabe alguma proteção contra monstros?”
Medivh sorriu e balançou a cabeça. “Não se preocupe. Não deveria saber. Faz parte do truque.” Olhou para cima e disse. “Então. O que sabe sobre mim?”
Khadgar olhou para Moroes o Castelão e subitamente percebeu que o servo havia desaparecido e voltado para as sombras. O jovem hesitou. “Os magos de Kirin Tor o tem em alta estima” disse com diplomacia.
“Obviamente.”
“É um mago independente poderoso e supostamente um conselheiro do Rei Liane de Azeroth.”
“Somos conhecidos.” disse Medivh, acenando para o jovem.
“Além disso...” titubeou, imaginando se o mago podia mesmo ler sua mente.
“Sim?”
“Nada específico que justifique o apreço...” disse Khadgar.
“E o medo.” acrescentou Medivh.
“E inveja.” finalizou o jovem, sentindo pressionado pelas perguntas sem saber o que responder. Logo complementou. “Nada que explique diretamente o grande respeito que os Kirin Tor têm em você.”
“É para ser assim.” explodiu Medivh, rabugento. Esfregou as mãos sobre o braseiro. “É para ser assim.” Não conseguia acreditar que o mago estivesse com frio. Estava tão nervoso que suor escorria pelas costas.
Olhou para cima por um longo tempo e a tempestade em formação voltou aos seus olhos. “Mas o que sabe sobre mim.”
“Nada senhor.”
“Nada?” disse e sua voz aumentou chegando a ecoar pelo observatório. “Nada? Percorreu esse caminho todo por nada? Não se incomodou em procurar? Talvez eu seja apenas uma desculpa para que seus mestres se livrem de você achando que morreria na viagem. Não seria a primeira vez.”
“Não havia muito que procurar. Não fez muita coisa.” respondeu com intensidade, e respirou fundo. Lembrou-se com quem estava falando e o que estava dizendo. “Quer dizer, nada que eu pudesse encontrar, ou melhor...”
Esperava uma explosão de raiva do mago, mas Medivh apenas riu. “E o que você descobriu?”
Khadgar suspirou e começou. “Você vem de uma linhagem de feiticeiros. Pai era um mago de Azeroth, um Nielas Aran. Mãe era Aegwynn, que pode ser tanto um nome quanto um título, de mais de oitocentos anos. Cresceu em Azeroth e conhece o Rei Llane e do Senhor Lothar desde a infância. Além disso...”
Medivh olhou para o braseiro e concordou. “Bem, já é alguma coisa. Mais do que a maioria pode desvendar.”
“E seu nome em alto elfo significa ‘Protetor de Segredos’” complementou Khadgar. “Descobri isso também.”
“Tudo verdade.” disse Medivh, parecendo cansado. Continuou olhando para o braseiro. “Aegwynn não é um título. Apenas o nome da minha mãe.”
“Então houve várias Aegwynn, provavelmente um nome de família.” sugeriu Khadgar.
“Apenas uma.” disse sombriamente.
Khadgar deu um sorriso nervoso. “Mas isso a faria ter...”
“Mais de setecentos e cinquenta anos quando eu nasci.” terminou Medivh com desdém. “É muito mais velha do que isso. Fui uma concepção tardia. O que pode ser a razão pela qual os Kirin Tor estão interessados no que guardo na biblioteca. E foi isso que veio descobrir.”
“Senhor,” disse o jovem tão calmo quanto pôde. “Para ser honesto, todos os magos do Kirin Tor, exceto o mais estimado, querem que eu descubra algo sobre você. Irei conciliá-los o máximo que puder, mas se tem algum material que prefere manter em segredo ou restrito, vou entender...”
“Se achasse isso, não teria passado pelas florestas até aqui.” começou com tom sério. “Para começar, preciso de alguém que separe e organize a biblioteca e então trabalhar nos laboratórios. Sim, se dará bem aqui. Sabe, sei o significado do seu nome, assim como sabe o meu. Moroes!”
“Aqui, senhor.” disse o servo, saindo de repente das sombras. Sem perceber, Khadgar pulou de susto.
“Leve o rapaz para o quarto e certifique que coma algo. Foi um longo dia.”
“Claro, senhor.”
“Uma pergunta, Mestre.” disse Khadgar se recuperando. “Quer dizer, Senhor Mago, senhor.”
“Quero que me chame de Medivh. Também respondo pelo nome de Protetor de Segredos e outros, nem todos conhecidos.”
“O que quis dizer quando disse saber meu nome?” perguntou o jovem.
Medivh sorriu e o cômodo ficou cálido e aconchegante de novo. “Não fala a língua dos anões,” apontou o mago.
Khadgar balançou a cabeça.
“Meu nome significa ‘Protetor de Segredos’ em Alto Elfo. Seu nome significa ‘Confiança’ na língua dos anões. Então levarei em conta o seu nome, jovem Khadgar. Jovem Confiança.”
Moroes levou o jovem pelas escadas até seus aposentos explicando com uma voz fantasmagórica que as refeições na Torre do Medivh eram modestas – mingau e linguiça no café da manhã, almoço com opções frias, e um jantar farto e nutritivo sendo um ensopado ou um assado acompanhado de vegetais. Após a última refeição Cozinheira iria se retirar, mas sempre haveria algumas sobras na câmara fria. Medivh mantinha um cronograma considerado “instável” e Moroes e Cozinheira já haviam aprendido como acomodá-lo com o mínimo de trabalho.
O castelão informou ao jovem Khadgar que, como era assistente e não servo, não teria esse tipo de luxo. Deveria que estar à disposição do mestre mago sempre que necessário.
“Sou seu aprendiz, já esperava isso.” disse o jovem.
Estavam andando pelo o que parecia um salão de bailes quando Moroes parou de repente. “Não um aprendiz ainda, Rapaz.” arfou Moroes. “Nem perto.”
“Mas Medivh disse...”
“Você pode arrumar a biblioteca. Trabalho de assistente, não aprendiz. Outros foram assistentes. Nenhum virou aprendiz.” disse o castelão.
Franziu a testa e suas bochechas coraram. Não esperava que tivesse um nível abaixo de aprendiz. “Quanto tempo até...”
“Na verdade, não sei.” suspirou Moroes. “Nenhum chegou tão longe.”
Khadgar pensou em fazer duas perguntas, hesitou e então tomou coragem. “Já teve quantos assistentes?”
O olhar de Moroes ficou sem foco e Khadgar não sabia se estava pensando ou se havia ficado desconcertado com a pergunta. A galeria logo abaixo estava com poucos móveis e uma mesa no centro com algumas cadeiras. Estava limpa e organizada, provavelmente porque Medivh não era de oferecer grandes banquetes.
“Dúzias.” disse finalmente o castelão. “Pelo menos. Maioria deles de Azeroth. Um elfo. Não, dois elfos. É o primeiro dos Kirin Tor.”
“Dúzias.” repetiu Khadgar com o coração pesado, imaginando quantas vezes Medivh havia dado boas vindas a um jovem aprendiz de mago.
Fez a segunda pergunta. “Quanto tempo duraram?”
Moroes respondeu com um riso de desdém. “Dias. Ás vezes horas. Um elfo não chegou ao topo da torre.” Tocou os antolhos que estavam na cabeça. “Eles vêm coisas, entendeu.”
Khadgar lembrou-se do vulto no portão principal e concordou.
Por fim chegaram aos aposentos do jovem que ficava numa passagem lateral, não muito longe do salão de jantar. “Acomode-se.” disse o servo, entregando-lhe a lanterna. “O banheiro é no final do corredor. Tem um penico debaixo da cama. Venha para a cozinha. Cozinheira fará algo quente para você.”
O quarto de Khadgar era uma cunha estreita da torre, mais adequado para as contemplações de um monge enclausurado do que um mago. Uma cama pequena encostada em uma parede, uma mesinha e prateleira vazia na outra e um armário. Jogou sua sacola sem abrir no armário e caminhou até a janela, que era um pedaço fino de vidro com chumbo, construído verticalmente sobre eixo central. Empurrou a janela e o óleo solidificado na parte inferior escorreu com a rotação.
A vista era da lateral da torre e das colinas arredondadas que a cercavam. Eram cinzas e desnudas à luz das luas gêmeas. Da altura em que estava, pareceu óbvio a ele que os montes foram uma cratera, desgastadas e deterioradas pelo tempo. Será que alguma montanha foi arrancada, como um dente estragado? Ou talvez a cordilheira houvesse ascendido mais rápido, deixando apenas esse local cheio de poder enraizado.
Khadgar imaginou se a mãe de Medivh estava aqui quando a terra subiu, ou afundou, ou foi atingida por um pedaço caindo do céu. Mesmo para um mago, oitocentos anos eram muita coisa. Sabia-se que depois de duzentos anos, a maioria dos magos humanos tornavam-se magros e frágeis. Ter mais de setecentos anos e ainda parir uma criança! Balançou a cabeça, será que Medivh estava caçoando dele?
O jovem tirou o casaco e foi conhecer as instalações no final do corredor. O banheiro era simples, mas tinha um jarro de água fria, um lavatório e um espelho sem manchas. Pensou em usar magia para esquentar a água, mas decidiu encarar como estava.
Tomou um banho revigorante e sentiu-se melhor ao colocar roupas mais confortáveis – uma camiseta que chegava até os joelhos e calças grossas. Era o que usava para trabalhar. Pegou um garfo da sacola, e depois de uma reflexão rápida, colocou-o dentro da lateral da bota.
Estava no corredor quando se lembrou de que não sabia onde ficava a cozinha. Não viu nada perto do estábulo, então presumiu que tudo deveria ser feito dentro da torre. Provavelmente perto do nível do solo, com uma bomba vinda do poço e uma passagem livre para o salão de jantar, mesmo que ele não fosse usado com muita frequência.
Khadgar achou a galeria acima do salão com facilidade, mas teve dificuldade em achar as escadarias que o levaram até lá. Eram estreitas demais. Escolheu uma saída que o levou a um corredor sem saída e cheio de quartos. Voltou e pegou outra saída, que o levou a um lugar parecido.
A terceira tentativa o levou para o meio de uma batalha.
Foi inesperado. Em um momento estava descendo pelos degraus, imaginando se precisaria de um mapa, um sino ou um berrante para conseguir se localizar na torre. No momento seguinte o teto se abriu dando lugar a um céu brilhante e vermelho sangue, e estava rodeado de homens com armaduras preparados para uma batalha.
Recuou, mas o corredor atrás dele havia desaparecido, deixando apenas uma paisagem irregular e desconhecida. Os homens gritavam e apontavam, e apesar de estarem a poucos metros de Khadgar, suas vozes eram encobertas, como se falassem debaixo d’água.
Seria um sonho? Talvez tivesse pegado no sono e suas preocupações fossem responsáveis por esse pesadelo. Não era isso, podia sentir o calor do sol grande e moribundo, a brisa e os homens berrando e movendo-se a sua volta.
É como se tivesse sido descolado do resto do mundo e ocupado uma pequena ilha, com ligações frágeis com a realidade que estava acontecendo. Era como se tivesse virado um fantasma.
Os soldados o ignoravam como se fosse um espírito. Khadgar pegou no ombro de um dos combatentes e para seu alívio, sua mão não o transpassou. Houve alguma resistência – ele podia sentir a firmeza da armadura, e com concentração, sentiria as arestas ásperas e depressões do metal.
Esses homens lutaram brava e recentemente. Apenas um dentre três estavam sem alguma bandagem ou ferida sob a armadura suja e elmos danificados. As armas eram entalhadas e salpicadas de carmesim seco. Caíra em uma batalha.
Examinou sua posição. Eles estavam no topo de uma elevação, uma simples dobra na planície que os cercavam. A vegetação havia sido cortada e formou muralhas toscas, agora guardadas pelo homem de expressão carrancuda. Não era um abrigo, castelo ou fortaleza. Haviam escolhido esse lugar para lutar por não haver outro.
Assim que o aparente líder, um homem de ombros largos e barba branca, abriu caminho, os soldados separam-se. A armadura que vestia estava tão maltratada quanto, mas compreendia um peitoral atarraxado a um conjunto de vestes vermelhas usado por acadêmicos, do tipo que só encontrariam nos corredores dos Kirin Tor. A bainha, mangas e colete estavam gravados com runas de poder – algumas que Khadgar reconheceu, mas outras eram estranhas. A barba cor de neve do líder chegava à cintura, escondendo a armadura e usava um solidéu vermelho com uma única gema dourada na fronte. Em suas mãos estavam um cajado com uma pedra na ponta e uma espada vermelha escura.
Estava gritando com os soldados e a voz dele parecia a Khadgar como se mar estivesse revolto. Os guerreiros entendiam o que falava, pois estavam entrando em formação ao longo das barricadas e outros ocupando espaços vazios.
O comandante trombou com Khadgar que sem perceber foi empurrado. Não deveria ter visto ele ali, assim como os guerreiros manchados de sangue.
Mas o comandante o notou. Seu tom abaixou por um instante e gaguejou. Pisou em falso em um desnível no chão e quase caiu. E ainda assim, virou-se para olhar Khadgar.
O jovem aprendiz percebeu que o comandante o via claramente. Sentiu os olhos penetrarem os seus e pareceu o mesmo olhar de Medivh quando estavam no observatório. Se algo fosse diferente, era que agora era mais intenso. Khadgar olhou nos olhos do comandante.
E o que viu o fez perder o fôlego. Sem pensar, virou o rosto assim quebrando o olhar fixo de ambos.
Quando Khadgar fitou-o de novo, estava acenando para ele. Foi breve e quase desdenhoso. E então o líder de barba branca estava novamente gritando e suplicando aos guerreiros para defenderem-se.
O jovem quis correr atrás dele e descobrir como podia vê-lo quando os outros não podiam e fazer perguntas, mas escutou um grito. Um grito abafado chamando os homens para seu último dever. Espadas e lanças foram levantadas e braços apontados para a serra próxima, onde uma inundação havia removido tons de roxo do solo cor de ferrugem.
Khadgar olhou para onde os guerreiros apontavam e viu uma onda verde e preta no topo do monte. Achou que era um rio, ou uma corrente de lama arcana e colorida, mas viu que era um exército avançando. A cor da sua armadura era preta, e a da sua pele verde.
Eles eram criaturas horríveis, uma imitação da forma humana. A face cor de jade era adornada com mandíbulas grandes e com presas, narizes chatos e farejadores, como dos cachorros. E olhos vermelhos pequenos e cheios de ódio. As armas negras e armaduras decoradas brilhavam no sol eterno deste mundo e ao descer a elevação, deram um urro que fez o chão sob eles balançar.
Os soldados deram seu próprio grito e assim que a distância da maré verde diminuiu lançaram uma saraivada de flechas. A linha dianteira das criaturas monstruosas tropeçou, caiu e foram esmagados de imediato por aqueles que vinham atrás. Uma saraivada e mais outra linha derrubada e subjugada por outra onda que seguia.
A direita da Khadgar, luzes e raios dançavam pela superfície atingindo-os. Podiam-se ouvir os gritos quando a carne queimava. Pensou no guerreiro-mago comandante, mas as setas apenas serviam para diminuir a horda que atacava.
E então as aberrações verdes estavam em cima deles. As madeiras derrubadas mais pareciam gravetos no caminho desse vendaval e o jovem viu a fileira ceder. Um guerreiro a seu lado tombou, empalado por uma longa lança negra. No lugar do guerreiro, apareceu um pesadelo de pele verde e armadura sombria, uivando ao derrubá-lo.
Khadgar deu dois passos para trás e virou-se para fugir.
E quase trombou com Moroes que estava na entrada.
“Você,” disse calmamente, “estava atrasado. Pode ter se perdido.”
Khadgar olhou para trás e viu que já não havia um mundo com céu carmesim e aberrações esverdeadas, mas uma sala de estar abandonada, com a lareira apagada e as cadeiras cobertas com lona. O aroma no ar era apenas de pó recentemente agitado.
“Eu estava...eu vi...eu estava...”
“Deslocado?”
O jovem engoliu seco e concordou.
“A ceia está servida.” gemeu o castelão. “Não fique deslocado de novo.”
E o servo em vestes negras virou-se e deslizou furtivamente do quarto.
Olhou mais uma vez a passagem sem saída que encontrou. Não havia nada mágico ou místico. A visão, se é que era isso, acabou com a mesma rapidez que começou.
Não havia soldados e nem criaturas verdes. Ou exército a ponto de sucumbir. Havia apenas a memória que assustou a alma de Khadgar. Foi real. E pareceu real. E verdadeiro.
O que mais assustou não foram os monstros ou o derramamento de sangue, mas o mago-guerreiro, o comandante de barba branca que foi capaz de vê-lo.
E o pior de tudo era que o comandante tinha os olhos de Khadgar. O rosto estava envelhecido, o cabelo branco como a neve, postura imponente, mas os olhos eram os mesmos que havia visto no espelho há poucos momentos atrás.
Khadgar deixou o quarto pensando se era tarde demais para pedir um par de antolhos.
Continue lendo "O Último Guardião - Capítulo 3".
fonte de imagem: http://static2.wikia.nocookie.net/__cb20131111162917/wowwiki/images/5/5b/Khadgar.png - acesso em 09.jan.2014
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fonte de tradução: World of Warcraft: The Last Guardian (No. 3) - 2006
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