quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ascensão da Horda - Capítulo 1



Meu nome é Thrall. A palavra significa "escravo" na língua dos humanos e a história por trás desse nome é longa, melhor deixar para uma outra hora. Pela graça dos espíritos e o sangue de heróis que corre em minhas veias, tornei-me Chefe Guerreiro do meu povo, os orcs, e de um grupo de raças chamada Horda.

Como isso aconteceu também é outra história. A que eu gostaria de descrever agora, ante aqueles que foram residir com os honrados ancestrais, é a história de meu pai, dos que acreditaram nele; e daqueles que o traíram e assim traíram todo o seu povo.

O que poderia ter acontecido se esses eventos não tivessem se desenrolado, nem mesmo o sábio xamã Drek'Thar pode dizer. Os caminhos do Destino são muitos e nenhum ser sensato deveria se aventurar no enganosamente agradável caminho do "se". O que aconteceu, aconteceu; meu povo deve carregar tanto a vergonha quanto as glórias de nossas escolhas.

Este conto não é o da Horda que existe hoje, uma organização desprendida de orcs, taurens, trolls, renegados e elfos sangrentos, mas a ascensão da primeira Horda. Seu nascimento, como o de qualquer infante, foi marcado por sangue e dor e seus gritos inclementes pela vida significavam morte para seus inimigos.

Para um conto tão violento e sinistro, ele começa pacificamente entre os montes e vales de uma terra verdejante chamada Draenor...

O ritmo dos tambores ninava os jovens orcs, mas Durotan do clã Frostwolf estava acordado. Estava deitado com os outros no chão da barraca acumulado de barro. Um enchimento de palha e uma grossa pele de fenoceronte o protegiam do frio de doer os ossos. Mesmo assim, ele sentia as vibrações das batidas viajarem através da terra e para dentro de seu corpo enquanto seus ouvidos eram acariciados pelo som ancestral. Como ansiava sair e juntas-se a eles!

Ainda faltava um verão para que Durotan participasse do Om'riggor, o rito da maturidade. Até esse acontecimento tão esperado, ele teria que aceitar ficar largado com as crianças na barraca enquanto os adultos sentavam em volta da fogueira e conversavam sobre coisas que, sem dúvida, eram misteriosas e significantes.

Ele suspirou e virou-se na pele. Não era justo.

Os orcs não lutavam entre si, mas também não eram particularmente sociáveis. Cada clã ficava na sua, com suas próprias tradições, estilos, vestimentas, estórias e xamã. Havia variações de dialetos que eram tão diferentes que alguns orcs não se entendiam a não ser que falassem a língua comum.

Sentiam-se tão distintos entre eles quanto à outra raça que dividia a generosidade dos campos, florestas e correntezas; os misteriosos pele azulada, chamados draenei. Apenas duas vezes ao ano, primavera e outono, todos os clãs orcs se reuniam como faziam agora, para honrar a época em que dia e noite tinham a mesma duração.

O festival havia oficialmente começado na noite anterior, ao nascer da lua, apesar de estarem reunidos naquele ponto há vários dias. Por tanto tempo quanto conseguiam se lembrar, a solenidade de Kosh'harg acontecia nesse local sagrado que os orcs chamavam de Nagrand, "Terra dos Ventos", que jazia na sombra benevolente da "Montanha dos Espíritos", Oshu'gun. Enquanto rituais de desafio e combate eram comuns durante o festival, animosidades e violencia nunca aconteciam. Quando os ânimos se exaltavam, como ás vezes ocorria quando tantos se aglomeravam, o xamã encorajava os grupos a resolverem pacificamente ou saírem da área sagrada.

A terra era exuberante, fértil e calma. Ás vezes Durotan se perguntava se essa tranquilidade era devido ao desejo dos orcs em trazer a paz ou se eles eram pacíficos porque a terra era tão serena. Sempre que tinha esses pensamentos, ele os guardava para si, pois nunca vira alguém expondo opiniões tão estranhas.

Durotan suspirou em silêncio, mente a mil, coração pulsando em resposta ao ritmo do rufar vindo de fora. A noite ontem foi maravilhosa, animando a alma dele. Quando a Dama Pálida clareou a linha escura das árvores na sua fase minguante, porém brilhante o bastante para lançar uma luz poderosa que era refletida nos bancos de neve, um júbilo foi ecoado das gargantas de cada um dos milhares de orcs reunidos; velhos sábios, guerreiros no seu auge e até crianças no colo de suas mães. Os lobos, não apenas montaria mas também companheiros dos orcs, se juntaram com uivos exultantes. O som vibrou pelas veias de Durotan, um profundo e primitivo brado de saudação à esfera branca que comanda o céu noturno. Ele voltou-se para olhar o mar de seres poderosos, levantando suas mãos marrons, prateadas pelo luar, para a Dama Pálida, todos com um foco. Se algum ogro fosse tolo o bastante para atacar, ele tombaria em segundos diante das armas de guerreiros tão determinados.

E então, chegou a hora do banquete. Dúzias de feras haviam sido abatidas na estação anterior, antes do inverno chegar, e foram desidratadas e defumadas para o evento. Fogueiras foram acesas, sua luz quente fundindo-se com o brilho encantado da Dama e as batidas começaram e não pararam desde então.

Como qualquer criança - deitado em sua pele ele torceu o nariz para a palavra - foi autorizado a ficar acordado até terminar a sua refeição e o xamã ter ido embora. Uma vez que o banquete de entrada havia acabado, os xamãs de cada clã partiam para escalar o Oshu'gun, entrar em suas cavernas e receber conselhos de seus ancestrais.

Oshu'gun impressionava mesmo vista de longe. Diferente de outras montanhas, irregulares e ríspidas, ela brotava do chão tão precisa e aguda quanto a ponta de uma lança. Parecia um cristal gigante que foi colocado na terra, com linhas bem proporcionadas e tão clara que cintilava tanto na luz do sol quanto da lua. Algumas lendas contam que ela caiu do céu há centenas de anos e ela era tão estranha que Durotan achava que essas lendas poderiam ser verdadeiras.

Por mais interessante que Oshu'gun fosse, Durotan não achava justo que os xamãs ficassem lá durante o festival todo. Para ele, os xamãs perdiam toda a diversão. Porém, pensando bem, as crianças também.

Durante o dia havia caçadas, jogos e a lembrança de atos heróicos dos ancestrais. Cada clã tinha suas próprias histórias, portanto haviam novas e excitantes aventuras para escutar, além das que havia escutado quando criança.

Por mais divertido que fossem, e mesmo gostando delas, ele ansiava para saber o que os adultos discutiam depois que as crianças caiam no sono em suas barracas; depois de suas panças estarem cheias de boa comida, de terem fumado e bebido muitas cervejas.

Ele não aguentava mais. Sorrateiramente sentou-se com os ouvidos atentos para ver se havia indícios de alguém estar acordado. Não escutou nada e após um longo minuto levantou-se e andou bem devagar até a entrada. Foi um progresso longo e lento na barraca escura. Havia várias crianças de tamanhos e idades diferentes dormindo e um passo em falso as acordaria. Coração acelerado pela animação da sua ousadia, Durotan pisou cuidadosamente entre os espaços visíveis, colocando seu largo pé com a delicadeza de uma ave.

Parecia uma eternidade até que chegasse à saída. Ele parou para diminuir o fôlego, esticou...

E tocou um corpo largo e de pele lisa ao seu lado. Ele puxou bruscamente sua mão com um silvo de surpresa.

"O que você está fazendo?" Durotan cochichou

"O que você está fazendo?" o outro orc retrucou. De repente Durotan riu do quão tolos eles pareciam.

"O mesmo que você" respondeu com sua voz ainda suave. Todos dormiam com a exceção deles.

"Podemos continuar discutindo ou agir"

Durotan podia imaginar pelo tamanho da fraca forma à sua frente que o orc eram um macho grande, provavelmente da mesma idade dele. Não conseguiu reconhecer o cheiro ou a voz, então ele não era do clã Frostwolf. Era uma ideia ousada - não apenas fazer algo proibido, como deixar a barraca sem permissão, e ainda fazer tudo isso na companhia de um orc que não era de seu clã.

O outro orc hesitou, com certeza dividido pelo mesmo pensamento. "Muito bem" finalmente disse "Vamos nessa"

Durotan esticou-se de novo na escuridão, seus dedos roçaram na pele da porta e na curvatura de sua beirada. Os dois jovens orcs puxaram o tecido e adentraram na noite gelada.

Durotan virou-se para seu companheiro. O outro era mais marrom do que ele e um pouco mais alto. Em relação a idade, ele era o mais alto do seu clã e não estava acostumado a alguém mais alto do que ele. Era um tanto inquietante. Seu aliado, em provocação, olhou para ele e ele sentiu estar sendo avaliado. O outro acenou, aparentemente satisfeito com o que viu. Não arriscaram falar. Durotan apontou para uma árvore enorme perto da barraca e silenciosamente os dois foram em sua direção. Era provável que o trajeto não fosse tão longo quanto pareceu, mas eles estavam expostos e qualquer adulto poderia vê-los se por acaso virasse a cabeça na direção deles. Apesar disso, não foram descobertos. Durotan sentiu como se estivesse à luz do dia, de tão brilhante que a lua estava em contraste com a neve cristalina. E o barulho da neve quando pisava era tão alta quanto um ogro enfurecido. Finalmente alcançaram a árvore e afundaram-se atrás dela. A respiração de Durotam condensou quando finalmente exalou. O outro orc virou-se e sorriu para ele.

"Eu sou Orgrim, linhagem de Telkar Doomhammer do clã Blackrock" disse o jovem num sussurro orgulhoso.

Ele estava impressionado. Apesar da linhagem Doomhammer não ser de chefes guerreiros, era muito conhecida e honrada.

"Sou Durotan, linhagem de Garad do clã Frostwolf" respondeu ele. Agora era a vez de Orgrim reagir ao fato de estar sentado com o herdeiro de outro clã. Ele acenou em aprovação.

Ficaram sentados por um instante, divertindo-se com a glória do desafio. Durotan começou a sentir o frio e a água infiltrar pela pele grossa de sua capa até chegar aos pés. Apontou para a multidão de novo e Orgrim assentiu. Espiaram pela árvore com cuidado, esforçando-se para escutar. Certamente agora eles escutariam os mistérios que tanto ansiavam saber. Entre os sons dos estalos da grande fogueira e as batidas profundas dos tambores, vozes flutuavam até eles.

"O xamã ficou atarefado nesse inverno com a febre" disse Garad, pai de Durotan. Ele afagou o gigantesco lobo branco que adormecia perto da fogueira. A besta, sua pelagem alva que o identificava como sendo dos Frostwolf, ganiu em satisfação. "Tão logo uma criança é curada, outra adoece".

"Eu estou pronto para a primavera" disse outro orc ao levantar-se e jogar um tronco na fogueira. "Tem sido duro para os animais também. Quando nos preparávamos para o festival foi muito difícil achar fenocerontes."

"Klaga faz ensopados deliciosos com os ossos, mas recusa-se a falar quais ervas usa" disse um terceiro fitando uma orquisha que estava amamentando um infante. A fêmea em questão, provavelmente Klaga, riu.

"A única que terá a receita é esta pequena quando ela tiver idade." respondeu.

De queixo caído, Durotan virou-se para encarar Orgrim, que estava com uma expressão similar. Isso era o que consideravam tão importante e secreto que as crianças eram proibidas de sair da barraca? Discussões sobre febre e sopas?

Na luz brilhante da lua ele não teve problemas para ver claramente o rosto de Orgrim. As sobrancelhas dele se juntaram ao franzir a testa.

"Você e eu podemos elaborar algo mais interessante do que isso, Durotan" disse numa voz fraca e tola.

Ele sorriu e concordou. Ele tinha certeza disso.

O festival durou mais dois dias. Quando saiam escondidos, fosse dia ou noite, eles desafiavam um ao outro em diferentes testes de habilidades. Corridas, escalada, força, equilíbrio, tudo o que pudessem pensar. E um derrotava o outro como se tivessem planejado os turnos. Quando, no último dia, Orgrim gritou por um quinto desafio para desempatar, algo dentro de Durotan o fez falar.

"Não vamos mais fazer desafios comuns e inferiores" disse ele, se perguntando de onde surgiam as palavras a medida que as pronunciava. "Vamos fazer algo nunca feito na história de nosso povo".

Os olhos cinzas de Orgrim brilharam ao que se aproximou "O que você sugere?"

"Vamos ser amigos, você e eu"

O queixo musculoso de Orgrim caiu. "Mas, nós não somos do mesmo clã." disse com uma voz que parecia que ele tinha sugerido uma amizade entre um lobo negro e um meigo talbuque.

"Não somos inimigos" disse com um gesto desdenhoso. "Olhe a sua volta. Os clãs se reunem duas vezes ao ano e não há problemas nisso."

"Mas...meu pai diz que a paz é mantida justamente porque nos reunimos pouco." continuou Orgrim. Preocupado, franziu a testa.

Decepção temperou as palavras de Durotan com amargura. "Muito bem. Achava que era mais corajoso que os outros, Orgrim dos Doomhammer, mas você não é melhor do que eles - acanhado, tímido e relutante em ver além do que já foi feito e do que é possível."

As palavras foram de coração e se ele tivesse calculado ou aprimorado elas por semanas, não poderia tê-las escolhido melhor. A face castanha de Orgrim corou e seus olhos estalaram.

"Eu não sou covarde" rosnou ele. "Eu não fugi de nenhum desafio que propôs".

Então ele pulou em Durotan, derrubando o orc, que era menor do que ele e os dois socaram-se até ser preciso chamar os xamãs para medicá-los e censurá-los sobre a incoveniência de brigar em local sagrado.

"Garoto impulsivo" ralhou a xamã do Frostwolf, uma velha orquisha chamada 'Mãe' Kashur. "Você não está velho para levar uma surra como uma criança desobediente, jovem Durotan".

O xamã que cuidava de Orgrim resmungou  semelhantes sons descontentes.

Mesmo com o sangue escorrendo de seu nariz e enquanto via o xamã curar um talho feio no torso de Orgrim, Durotan sorriu. Orgrim olhou para ele e sorriu de volta.

O desafio havia começado, o desafio final, muito mais importante do que corridas ou levantar pedras, e nenhum estava disposto a admitir a derrota...dizer que a amizade entre dois jovens orcs de clã diferentes era errado. Durotan pressentiu que esse desafio em particular acabaria apenas quando um deles morresse...ou talvez nem assim.








fonte de imagem: http://static2.wikia.nocookie.net/__cb20101017183203/wowwiki/images/2/2e/Thrall_magazine_cover.jpg - acesso em 18.dez.2013
fonte de imagem: arquivo pessoal.
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fonte de tradução: World of Warcraft: Rise of the Horde (No. 4) - 2006

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